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os 38 de Canoas

Bom futebol para poucas testemunhas

por Luís Felipe dos Santos

O ingresso para a partida

No dia dos pais, 12 de agosto, o Inter enfrentava o Goiás no Serra Dourada diante de 38 mil espectadores. No mesmo dia, o Grêmio era derrotado pelo Corinthians no Pacaembu, com apenas 15 mil pagantes. O Juventude perdera no dia anterior para o Sport Recife, líder na média de público do campeonato – 25.397 pessoas por jogo. Média um pouco menor que a do Bahia, que leva 27.624 pessoas por partida, vinte mil a mais que o vice-líder Juventude. Na mesma tarde do dia dos pais, a Ulbra goleava o Villa Nova (MG) por 5×0, com apenas 38 pagantes.

Império Jovem Não havia apenas 38 pessoas no estádio, é necessário dizer. Cerca de cem pessoas estavam presentes na arquibancada central da Ulbra, denominada “social”. Ao lado esquerdo da arquibancada, umas quarenta pessoas faziam barulho debaixo de faixas verticais de pano, semelhantes às barras utilizadas por Popular do Inter e Geral do Grêmio. A torcida organizada Império Jovem fazia um barulho considerável. Cantava músicas como “A Ulbra é o time do povo” e “Vamo vamo Ulbra”, além de coreografias bizarras como a dança do siri, ao som de um surdo. Levaram duas faixas, em azul e vermelho, com a inscrição “Império Jovem” em branco, e uma bandeira muito bonita onde um feiticeiro leva o símbolo do Sport Club Ulbra nas mãos.

O sol amainava o frio daquela tarde e compunha um cenário bonito para a prática do futebol. O campo da Ulbra é bem cuidado, e as instalações do estádio Complexo Universitário (com capacidade para aproximadamente 10 mil pessoas, segundo o site oficial) são impecavelmente limpas. Os banheiros do setor “social”, por exemplo, são pintados, e têm uma janela onde até dá para ver o campo. Também dá para ver o campo do bar, localizado debaixo da arquibancada – as grades atrapalham um pouco a visão das grandes janelas, onde está reservado um espaço para cadeirantes.

O campo visto do bar

O bar vende pastéis, salgadinhos e copos de meio litro de refrigerante, servidos por prosaicas garrafas pet. A atendente não quis me responder o faturamento do bar em dias de jogo. “Tem crachá?”, perguntou. Como o reporteresportivo.com ainda não providenciou identificações para os seus jornalistas, ela foi sucinta. “Então não posso te dar nenhuma informação”.

o público

O público é composto por torcedores de idades variadas, e chama atenção a quantidade de famílias presentes no estádio. O funcionário da Ulbra Valdir, que cuida do gramado, aproveitou o dia de sol para levar a esposa Orilde, os dois filhos e a sobrinha. “Eu sempre trago a família. Venho quase sempre ver os jogos da Ulbra, mas hoje é um dia de pouca gente”, afirmou. O filho Edinei atua no futebol juvenil da universidade. Também atua nas categorias de base, mas do futsal, o estudante Daniel Félix dos Santos, de 16 anos. Daniel, morador de Canoas, gosta de assistir os jogos da Ulbra não só para prestigiar o desempenho luterano no cenário nacional. “Gosto de estudar o posicionamento dos jogadores, para aprender alguma coisa. Tem oito jogadores muito bons no time, inclusive o goleiro, gosto muito do seu estilo”, diz Daniel, referindo-se a Rafael, ex-guarda metas do Pelotas. Daniel e Valdir não estão na lista de pagantes da Ulbra – como trabalham/treinam no clube, ganham o acesso gratuito ao estádio.

Diferente é o caso de Roger Alex França, 17 anos, estudante de biomedicina. Roger, também morador de Canoas, levou o pai para assistir a equipe. Na ocasião, o aluno vestia uma camiseta do Internacional, que jogava no mesmo horário. Roger não achava estranho optar pelo jogo da Ulbra: “É importante apoiar o futebol gaúcho”, declarou. Roger não era o único a vestir camisetas de times conhecidos. Outros três torcedores colorados estavam identificados; também havia um gremista. Dentre as mais de cem pessoas na arquibancada social, não passavam de cinco as que vestiam alguma peça do uniforme da Ulbra.

No final do segundo tempo, com o jogo decidido (o placar estava 4×0) uma senhora e uma moça conversavam animadamente perto da bandeirinha de escanteio. Enquanto isso, seis crianças brincavam, correndo pela arquibancada sem ligar para o que acontecia no campo. A minha câmera e o meu bloco de anotações chamara atenção do menino mais novo. “O que tu tá fazendo?” “Fazendo uma matéria”. “Tu é jornalista?” “Aham”.

a fam�lia

“Bah, agora ele te alugou”. Quem dizia isso era Kátia Andrade, a moça. Mãe de Vítor, 5, Emylee, 10 e Felipe, 7 anos, aquele que conversava comigo. Felipe joga no “fraldinha” da Ulbra, no futebol, enquanto Emylee faz ginástica e futsal na universidade. Vítor, o mais novo, entra ano que vem no Sport Club. A família mora em Canoas, e Kátia colocou os filhos no esporte porque via no clube da Ulbra uma excelente alternativa para desenvolver as capacidades dos filhos. Ela conheceu os fundadores da Império Jovem, segundo ela, uma torcida “espontânea”, formada por três alunos da escola de futsal. Estava lá, com as crianças, pelo mesmo motivo de Roger – prestigiar o time da cidade. “A gente incentiva o gosto deles pelo time da cidade. Acho um absurdo a pouca divulgação de jogos importantes como este, já que a Ulbra tem uma TV, que passa programas de Grêmio e Inter…como é que não transmite as próprias partidas?”, desabafa Kátia. “Às vezes, a única forma de saber que tem jogo da Ulbra é o placar novo que colocaram no estacionamento e que informa dos próximos jogos. A gente já perdeu várias partidas por não saber que existem”. Kátia também leva os filhos, de vez em quando, para o Beira-Rio, onde certamente não encontra um ambiente tão amigável como no estádio luterano. Felipe, por exemplo, diz que prefere o estádio do Inter porque “tem mais gente”, “dá pra gritar mais”, etc. Porém, Emylee confessa que o estádio da Ulbra é “mais divertido” porque “aqui dá para correr”.

Saí antes do final da partida e não vi o último gol. Procurava saber do borderô, por isso entrava nas portas de ferro que davam acesso à parte interna do estádio. Os brigadianos escalados para a partida – não passavam de dez – aproveitaram a tranquilidade do momento para ir embora. O ambiente da torcida era extremamente pacífico, mesmo na organizada. O fiscal da FGF que recolheu os ingressos (a única pessoa presente na porta do estádio quando entrei; nenhuma revista aconteceu, não era necessário) também já havia partido, assim como a funcionária da bilheteria. Na porta que dá acesso ao setor de imprensa, um funcionário da Ulbra passava no notebook informações da partida e o locutor da rádio mineira que cobria a partida tentava explicar para Nova Lima a derrota humilhante do seu time. A rádio Nova Lima FM também levou um repórter de campo, demonstrando uma estrutura invejável mesmo para algumas rádios gaúchas, que sequer levam narrador em partidas fora de Porto Alegre.

Na entrada do departamento de futebol – que dá acesso ao vestiário – soube que a funcionária responsável pelo borderô já fora para casa, então era necessário aguardar o site da CBF. Até pensei em entrar no vestiário e fazer as entrevistas pós-jogo, mas não tinha gravador nas mãos. Então, fui para casa. O ônibus que levava os torcedores da Império Jovem partiu logo antes de mim. O ambiente na Ulbra, ao final de tarde, é muito bonito em dias de sol. Atrás de mim, três rapazes ilustravam o caminho com o compasso solitário de um surdo.

final de tarde

Agora em setembro, no início da terceira fase, a Ulbra venceu o tradicional América no Rio de Janeiro por 3×2, e segue firme o caminho rumo à segunda divisão nacional. Dia 16 de setembro, o time luterano enfrenta o Bragantino em Canoas, provavelmente com o apoio de mais do que 38 torcedores.

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