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Já nem se lembram que existe um Brejo da Cruz

               Estórias de gentes que fazem do futebol um complemento de renda  

Felipe Prestes (felipenprestes@gmail.com  

É domingo de sol em Porto Alegre. Não há uma nuvem sequer, é dia de passe livre e a rua chama. Hoje, o líder do campeonato brasileiro, São Paulo, vai enfrentar o Internacional, reeditando a final da Libertadores de 2006. Desço do ônibus e caminho em direção ao Estádio Beira-Rio. Para quem vem do Centro é preciso passar pela Av. Borges de Medeiros, que margeia o Parque Marinha do Brasil. São duas horas da tarde, faltam duas horas para o jogo, e o movimento já é intenso. A expectativa é de grande público no Beira-Rio.  

Expectativa também de um complemento de renda para inúmeras pessoas que, por iniciativa própria – como mandam os preceitos liberais – vão para os arredores do estádio vender cerveja, refrigerante, água, radinho, pilha, cachorro-quente, xis, camisetas, chaveiros e sei-lá-mais-o-quê. São brancos, negros, pardos, mulatos, sararás, velhos, moços, mães solteiras acompanhadas dos filhos, casais, pé-rapados, gente de classe média com seus carros, ou camionetes, uns que armam tendas, outros com seu humilde isopor, uma velha gorda e desdentada, três criancinhas de uns dez anos sozinhas que arranjaram pilhas, radinhos, uma bancada, e um gritedo que é a única estratégia de marketing possível.  

Quero saber quem é essa gente, que problemas enfrenta, porque os enfrenta. Caminho pela avenida, observando tudo e trazendo comigo a mesma perplexidade que o Chico na canção o “Brejo da Cruz”:  

 “(…) Na rodoviária assumem formas mil/ uns vendem fumo, tem uns que viram Jesus/ muito sanfoneiro cego tocando blues/ (…) Mas há milhões desses seres que se disfarçam tão bem que ninguém pergunta de onde essa gente vem/ São jardineiros, gurdas-noturnos, casais/ São passageiros, bombeiros e babás/ (…) São faxineiros, balançam nas construções/ São bilheteiras, baleiros e garçons/ Já não se lembram que existe um Brejo da Cruz/ Que eram crianças e que comiam luz.”   

A um quilômetro do local da partida começam a aparecer os primeiros ambulantes com isopores cheios de bebidas. Abordo um senhor branco de guarda-pó e boné, acompanhado de um rapaz mais moço também branco e também de boné. Têm consigo um isopor acoplado a rodinhas. Explico que sou jornalista ao rapaz mais moço e quero saber como é o trabalho deles. Sou recebido com desconfiança pelo rapaz como temia. A desconfiança, contudo, não se deve à prática de atividade ilegal; é que Paulo, 30 anos, não se vê apto a responder coisa alguma uma vez que está “só ajudando”.  

Quem responde mesmo é o simpático Otílio, 76 anos, que trabalha no comércio há 20 anos no Parque Marinha, e tem ponto permanente, com alvará. Em dias de jogos, Otílio vai para a calçada da Avenida vender, principalmente, cerveja: “Em dia de jogo eles não deixam vender cerveja, mas a gente vende”, diz. Aposentado do Estado, o velho vem ao Parque apenas em fins-de-semana e feriados, diz sorrindo que a renda obtida dá pra “quebrar um galho” e que trabalha também por hábito: “Eu tô acostumado, conheço muita gente por aqui”, afirma, enquanto Paulo ia ao estacionamento pegar mais bebida em um isopor enorme que guardava no porta-malas de um Monza verde-metálico todo amassado. Tiro umas fotos do velho simpático, me despeço e sigo andando.  

Abordo uma mulher, de uns trinta anos, branca, cabelos pretos, bonita. Veste “regata” vermelha, calça de abrigo e boné, vende refrigerante em um grande isopor e está acompanhada de um casal de crianças. Explico que sou jornalista, que vou publicar uma matéria na Internet, que não quero prejudicar ninguém e que ela não precisa se identificar. “Eu tenho medo”, responde, “é que a gente não pode, né”. Insisto que não há o que temer, pois não precisa se identificar. “É pra Internet? Eu tenho medo desse negócio de Internet”, diz a moça com um sorriso constrangido. Tudo bem.          

Tento conversar com um negro alto, de boné, camisa social, colete e calça jeans, que aparenta ter mais de sessenta anos. Ele responde com cara de poucos amigos que trabalha no Parque.  “Aqui é só em dia de jogo?”, pergunto. “É, só em dia de jogo”, responde seco e desconfiado. Desse mato não sai coelho. Sigo adiante.  

Estou a uns quinhentos metros do Beira-Rio. Avisto um senhor mulato, de boné, camisa e calça social, me lembra um daqueles cubanos do Bueno Vista Social Club. Tem uma bancada feita de isopor, erguida por um cavalete. Na bancada radinhos, pilhas, isqueiros e possivelmente outros badulaques que não me recordo. O movimento já é mais intenso. Tento uma abordagem amigável, puxo conversa. O velho responde, é simpático, mas não me dá muita bola. A todo o momento grita: “Pilhas! Radinhos!” Explico as minhas intenções, o velho diz que está trabalhando, que naquele momento não dá, e continua a gritar: “Pilhas! Radinhos!” Evita olhar pra mim e procura se mostrar ocupado.  

Percebo que não é só o fato de estar ocupado que o motiva a não falar, mas, realmente, já não é a hora mais adequada para minha empreitada. É hora de ir ao Beira-Rio e curtir o espetáculo. Vou refletindo, tenho que mudar minha abordagem. Só Otílio havia topado falar, mas este tinha alvará e já trabalhava há vinte anos por ali. Penso sobre como é fácil entrevistar alguma “pessoa pública”, alguém que tenha interesse em falar. Aqui minha missão é muito mais difícil. Essas pessoas têm muito pouco – para não dizer nada – a ganhar dando entrevistas. E têm muito medo.  

Passada a partida, vou esperar o movimento refrear na saída do Estádio para fazer novas tentativas. Com a derrota do Internacional por 2 a 1, a venda de bebidas e adereços deverá ser pequena. Um negro, baixinho, de camisa pólo e calça jeans vende cerveja logo após o pórtico de saída do Beira-Rio, em frente a inúmeros policiais militares. Preciso ganhar a confiança do sujeito antes de me apresentar como jornalista. Pergunto quanto está a cerveja.  

 – Dois e cinqüenta o latão.

– Bah, tu não tem a latinha?

– Não, quanto é que tu tem aí? Te faço por dois pila.

– Tá ruim a coisa aqui pra mim tenho só um pila e umas fichas de ônibus de estudante.  

Ele ri.  

– De estudante é ruim.

– Tu não me faz o latão por um pila e duas fichas de estudante?

– Tá bom, eu faço.

– Encalhou a cerveja aí?

– Quando o time perde fica ruim.

– Eles (olho para os policiais) atucanam muito vocês?  – pergunto já tomando a minha cervejinha.

– Não, é tranqüilo. Hoje é feriado a Smic (Secretaria Municipal de Indústria e Comércio) não vem. E a Smic, quando vem, vem em cima dos caras ali das vans, que ficam parados, se tu ficar andando não tem problema.

– É que eu sou jornalista e queria saber como é que é a correria do pessoal que trabalha nos arredores do estádio como tu e todo mundo fica desconfiado.

– Ah, é que agora eles tão em cima da cerveja, mas hoje foi tranqüilo. (para quem não é do Rio Grande do Sul, o atual Secretário de Segurança do Estado acha que combater o uso de bebida alcoólica é uma verdadeira panacéia para o problema da violência).  

– Tu vem em tudo que é jogo, do Inter e do Grêmio?

– Aham, todos os jogos eu to aí.

– E tu trabalha com isso em dias comuns também?

– Sim, todo o dia.

– Tu tem filhos, esposa? Consegue te sustentar com isso?

– Tenho três filhos, esposa, espero que eles estudem. Eu trabalho à noite como segurança e comecei há pouco a trabalhar com isso de dia, todos os dias. Comecei no Grêmio e Boca (final da Libertadores) e vendi um monte. Aí eu comecei a trabalhar no Centro todos os dias, vendendo refrigerante. Eu solicitei à Smic uma autorização de ambulante, aí eles te indicam três bairros pra ti escolher, mas não indicam o Centro aí fica ruim. Só que no Centro se tu vende refri e água eles só te mandam andar, não pode ficar parado. O problema é a cerveja.

– O que te fez trabalhar com isso, a coisa apertou de grana?

– Não, o pobre consegue viver, mas chega uma hora que a gente que buscar mais coisa. Eu fui num jogo, deu dinheiro, eu continuei.

– E quanto é que tu tira em média por dia?

– Depende, hoje, por exemplo, o Inter perdeu. Tu tem que achar uma ceva barata.

– Tu compra no mercado?

– Sim, no Big.

– Quantos anos tu tem?

– Trinta e seis.

– Tu toparia tirar uma foto e me dizer teu nome? 

Olha pra baixo, ri e fala contrariado. 

– Bah, eu sou meio fraco pra essas coisas. 

Entendo que seria exposição demais e digo: 

– Tá, então inventa um nome bonito aí pra eu botar na matéria.

– Hmm, Paulo Roberto.  

Após algumas risadas, eu agradeço e vou me embora: 

– Valeu Paulo Roberto!   

Acabou minha grana, o lugar começou a ficar desabitado e perigoso e eu me mandei. O dia foi de aprendizado sobre como ganhar a confiança de pessoas como “Paulo Roberto”. Espero encontrar nas próximas partidas em Porto Alegre caras como ele – ou o próprio – que me apresentem a outros, se é que há uma rede entre estes comerciantes. Percebi também que poderia ter tirado fotos que não mostrem o rosto dessas pessoas. E preciso me adentrar no mundo das vans, camionetes, tendas e carrocinhas, comerciantes de classe média que fizeram um certo investimento e que renunciaram – ou não – à vida dos “bons empregos”. Este relato ainda não acabou. Na próxima edição o que eu encontrar pelos arredores do Estádio Olímpico.   

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Comentários»

1. 3ª Edição – Não pensamos em desistir « - 10 outubro, 2007

[…] nessa edição da RE, Felipe Prestes acompanhou o antes e o depois dos vendedores ambulantes no jogo Internacional e São Paulo, e conta as dificuldades deles e as que teve para fazer sua matéria. Luís Eduardo foi a um treino […]

2. Gustavo Lacerda - 29 outubro, 2007

Grande Felipe! Afude a narrativa. Parabéns pelo site. Se precisar de alguma coisa do mailing, me manda um e-mail. Abraço, Guti!

3. ''Eduardo Silva'' - 6 dezembro, 2007

Meu, mto boa a matéria!! Eu sou praticamente de classe media, vivo com minha mãe e o namorado dela, os dois desempregados, tenho um emprego bom. Dá para crescer e tirar uma renda legal, mas estou pensando em virar ambulante, vc que pequisou sobre tem algumas dicas para me passar?

Mto obrigado!


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