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Abóboras buscam espaço para seu futebol

Luís Eduardo Gomes (luisgomes_86@yahoo.com.br)

 

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Domingo de manhã, cerca de 25 pessoas se reúnem nas dependências da Escola de Educação Física da UFRGS para jogar futebol. Estando no Brasil, não há nada mais normal do que isso, certo? A princípio sim, se não se tratasse de um treino de uma das duas equipes de futebol americano da Capital gaúcha, o Porto Alegre Pumpkins.

 

Mas o que faz um time de futebol americano no Brasil? Provavelmente nem Carlos Augusto Brum (20 anos), Vinícius Bergmann (19 anos) e Daniel Romanenco (20 anos) soubessem responder a essa pergunta em 2004, antes de começarem a jogar o esporte – no início como uma brincadeira, sem regras e posições – no colégio Farroupilha. “Quando ele trouxe a bola oval (o Carlos), a gente começou a se interessar, muito pela curiosidade. A gente começa a brincar, de se passar, de se lançar. Quando eles estavam no terceiro ano, todo o pessoal jogava, mas era bem sem regra. Pessoal se batendo, era quase uma carniça com bola oval”, diz Vinicíus, atual presidente do time.

 

Entre esse período e novembro de 2006, quando o Pumpkins jogou sua primeira partida contra o Brusque Admirals (SC), os três amigos de infância se reuniam com outros conhecidos para jogar partidas a base da improvisação de cinco contra cinco em uma quadra de futebol sete. A partir daí, os garotos começaram a levar a brincadeira a sério. Inspirados nos jogos da NFL – que durante a temporada regular são transmitidos aos domingos e às segundas – e no jogo de vídeo-game Madden (um dos mais vendidos no mundo todo), eles passam a formular a idéia de criar um time regular de futebol americano. O que se concretiza em março de 2006, quando 25 pessoas se reuniram na Esef para o primeiro treino dos Pumpkins.

 

Contudo, não basta apenas vontade para se criar uma equipe, é preciso fundamentação teórica para se jogar futebol americano. Então, o Pumpkins contou com um treinador para se organizar nos primeiros momentos. “A gente teve a ajuda do Ernani Costa Valério, que já inaugurou dois times e entrou no início de outro. No Pumpkins, ele estava morando aqui a trabalho, ele começou a dar os treinos realmente. Até então, a gente só sabia as regras, mas não sabia como fazer”, declara o Vinícius.

 

A partir do momento em que Ernani começa treinar o time as posições começam a ser definidas. Mas, como definir posições em um esporte tão fora de nossa cultura? Como saber quem é a pessoa ideal para jogar de Middle Linebacker (jogador da segunda linha da defesa), ou Free Safety (geralmente encarregado de impedir os passes) ou Full Back (divide as funções de bloqueador e corredor)? Afinal, mesmo entre os que acompanham futebol americano, o glamour do esporte está todo concentrado nas figuras dos Quarter-Backs (arremessadores), Wide Receivers (recebedores de passes) e Running Backs (corredores). “A pessoa que chega a gente vê: o cara é gordo, mais é forte, é grande, a gente vai colocar na linha (ofensiva, que protege o QB)”, afirma o presidente do time.

 

Como não há a cultura tática existente entre os americanos, é preciso estabelecer uma estratégia de como definir as posições daqueles que vão se juntando ao time. Seguindo os moldes dos criadores do esporte, os Pumpkins também fazem Drills (testes específicos para as posições). “A gente vê a velocidade das pessoas em 30 jardas”, exemplifica Daniel, o Quarter-Back do time. Estes testes são realizados no Parque Marinha do Brasil. O Pumpkins alterna os treinos de posições com coletivos, estes realizados na Esef. 

  

Após a formação do time, começa a ser cobrada mensalidade de R$ 20 reais por mês dos integrantes da equipe. O dinheiro vai para o Caixa do time e é usado na compra de materiais, aluguel do campo, para o pagamento de viagens em caso de jogos no interior ou em outros estados, etc.Vinícius conta esta também é uma forma de manter a assiduidade dos jogadores, uma vez que, segundo ele, a alta rotatividade de pessoas, que começam e desistem, nas equipes de futebol americano brasileiras é uma das grandes dificuldades para se praticar o esporte.                                                     

Treinos 

Estive na Esef no dia 7 de outubro. O treino começou por volta das 9h com 20 minutos de aquecimento e treino físico. Após esta primeira etapa, os jogadores se dividiram em três equipes: defesa, ataque e especialistas, que tem como uma de suas funções os Field Goal (chutes dentro do Y). Contudo, ao contrário dos times profissionais, que contam com 3 times separados para cada função, a realidade do futebol americano amador exige que jogadores exerçam mais de uma função nos treinamentos. Por isso, os especialistas eram formados por apenas 5 jogadores, ao contrário dos usuais 11, que apenas tentavam chutes enquanto os “veteranos” do ataque e da defesa explicavam o funcionamento do jogo para os novatos, muitos deles participando pela primeira vez de um treino. Sim, literalmente explicavam, afinal entre as pessoas que estavam ali pela primeira vez, alguns deles não tinham conhecimento do esporte.

 

Por volta das 10h36 iniciou-se o coletivo. Ataque contra defesa, simulando uma partida normal. Três tentativas para se conseguir 10 jardas. Em um jogo, caso elas não sejam alcançadas, a bola geralmente é devolvida para o adversário através de um Punt ou há a tentativa de um Field Goal, para se marcar três pontos. Aqui, as jogadas eram tentadas novamente. Logo no início, um dos corredores, Matheus Rahde da Rosa, sai machucado do treino. Segundo ele, foi apenas uma torção leve no joelho, mas suficiente para tirá-lo do treino pelo resto da manhã.

 

Esse talvez seja o grande problema para o desenvolvimento do esporte. Futebol americano é basicamente contato e impacto. Os Pumpkins, embora tenham até alguns equipamentos, não os usam no coletivo. Não há capacetes, protetores, joelheiras, etc., a única proteção apresentada pela maioria são os mordedores bucais. O risco de lesões parece ser enorme, apesar de Vinícius garantir que elas são mais raras do que se possa imaginar. Segundo ele, as sérias que aconteceram desde 2004 não enchem uma mão.

 

O coletivo vai até o meio dia, com um intervalo de cerca de 15 minutos. Afinal, tanta pancada seguida deve ser exaustante, e isso pôde ser verificado devido ao grande número de jogadores que estavam com a mão na cintura na parada. Durante todo o período que eles estiveram em campo, aconteceram três Touchdowns – a jogada máxima, que pode valer 7 pontos -, muitas corridas, alguns bons passes, jogadas interessantes da defesa, e muita gente parecendo ainda não estar se entendendo. Em suma, um jogo divertido. Diversão, aliás, é visível em campo. Os jogadores vibravam após cada boa jogada, hora a defesa, hora o ataque celebravam. A alegria, que pode ser traduzida pelas palavras do Tight-End (acumula funções de recebedor e bloqueador), Guilherme Sffair. “O Pumpkins é uma família. O pessoal é muito afudê”.

 

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 Onde estão os adversários? 

Embora o coletivo pareça ser muito legal, obviamente este não é o fim do Pumpkins. Mas, existem outros times de futebol americano para se enfrentar? No início não havia. A primeira partida da equipe foi em outro estado, mais precisamente em Brusque, contra o Admirals em novembro de 2006. Os garotos levaram nove horas de ônibus para disputar seu primeiro jogo. No primeiro tempo (são dois divididos em dois quartos), uma goleada para os catarinenses: 21 a 0. Contudo, os 14 pontos marcados no segundo tempo contra os segundos colocados do Catarina Bowl, que já jogavam há dois anos, estavam longe de ser uma má estréia. E, no mínimo, foi uma grande experiência. Segundo Vinícius, este foi o marco decisivo para eles. “Foi aí que a gurizada começou a curtir realmente. Não foi mais o ataque branco contra a defesa preta, foi o Pumpkins de laranja. A gurizada que se batia, agora tava torcendo”.

 

A paixão pelo esporte desenvolvida através dos Pumpkins gerou frutos. Um dos membros da equipe voltou a sua terra natal, Veranópolis, e lá fundou um time, os Buzzards. No início de 2007, aconteceu um confronto entre os times. Resultado: 41 a 0. Agora eram os outros que jogavam pela experiência. Na seqüência uma partida contra os Black Nights, de Ponta-Grossa (PR). Local? O meio do caminho, Florianópolis. Uma nova derrota, 12 a 6, mas também contra jogadores muito mais rodados.

 

Após o jogo contra os Black Nights, aconteceu uma debandada nos Pumpkins. Em agosto, boa parte dos jogadores saiu para fundar um novo time, os Predadores. A perda fez com que eles voltassem a treinar com apenas sete pessoas. Foi então que a Zero Hora achou que a equipe valesse uma matéria. A partir daí a equipe foi se reerguendo, de portas abertas para os novatos – alguns deles muito grandes -, até chegar ao bom número de membros que treinaram neste domingo.

 

A partida seguinte, novo embate contra o Buzzards, em Veranopólis. Dessa vez, os adversários estavam melhores preparados e contavam até com grande torcida. Debaixo de chuva, a revanche dos interioranos foi mais disputada, 18 a 6 para o Pumpkins. Próxima parada: Chacais, em Santa Cruz, no dia 4 novembro. Detalhe, quatro árbitros apitaram a partida, o que é um recorde em partidas do Pumpkins, mas ainda longe dos sete dos jogos profissionais. Geralmente, membros de outras equipes são chamados para apitar os jogos, na parceria mesmo. Daniel já apitou um jogo, e reconhece a dificuldade de se mediar um esporte com um grande número de possibilidades de falta. “Sempre tem uma reclamação. Não tem uma jogada que não tenha. ‘Tu não viu isso?’. ‘Não, eu tava olhando para outra jogada aqui’.”

 

Encerrada a entrevista que fiz após o treino, deixei a Esef com a vontade de um dia tentar jogar. Contudo, meu joelho operado diz que essa não é a melhor idéia que já tive. E você, conhece o esporte? Interessou-se pelo Pumpkins? Vai encarar?

Comentários»

1. Chulapa #94 Pumpkins - 10 outubro, 2007

Muito boa a reportagem gurizada!!!
Curti um monte!
grande abraço pra vocês!

2. Daniel (Pumpkins) - 10 outubro, 2007

Muito bom Luis,
Parabens pela reportagem, ficou bala
Valeu por divulgar nosso time!

3. Leandro Oliveira - 10 outubro, 2007

Aí Luis,

Muito boa a tua reportagem. Se um dia quiser encarar, o time com certeza estará de braços abertos.
Go Pumpkins!

4. Vinicius Bergmann - 11 outubro, 2007

Parabéns pela exelente reportagem e acima de tudo muto obrigado por divulgar nossa equipoe de forma séria e competente. Espero que possa ir a mais treinos e quem sabe, à Sta Cruz com a gente. Parabéns de novo e Grande abraço!

5. Leila Mury Bergmann - 11 outubro, 2007

Excelente reportagem!
… Embora eu continue não entendendo nada sobre as regras do jogo, torço pelo sucesso desses guris que são exemplo de garra e dedicação a um esporte!!! … E… claro, torço também porque sou uma mãe coruja e orgulhosa do meu filho Vinícius – certamente o melhor em campo… eheheh!
Abraços e parabéns ao time!

6. Alexandre Langer - 12 outubro, 2007

É isso aí Vinícius e turma!!
Sempre soube que esta iniciaiva do Pumpkins tinha muito valor.
Não percam o espírito de luta e de equipe e não se deixem vencer pelas dificuldades.
Esta á a grande lição que o Pumpkins vai deixar para vocês pelo resto da vida.
Mesmo sem um campeonato, vcs já são vencedores.
Parabéns!!

7. C.P. Bergmann - 15 outubro, 2007

Parabéns pela reportagem e parabéns aos pumpkins.
Eu sou suspeito para fazer qualquer comentário!

8. Guillermo - 15 outubro, 2007

Legal, mas prefiro o verdadeiro esporte bretão: o rugby.

DÁ-LHE GRÊMIO!!!
DÁ-LHE MUNCHEN!!!

9. George - 13 novembro, 2007

Muito bacana descobrir que existe um time de futebol americano aqui em Porto Alegre.
Sou um novo fã do esporte e ficaria muito feliz em assistir um treino ou uma partida ao vivo!

um grande abraço e muita sorte a todos!

10. 3ª Edição « - 20 junho, 2009

[…] Paulo, e conta as dificuldades deles e as que teve para fazer sua matéria. Luís Eduardo foi a um treino do Porto Alegre Pumpkins, equipe de futebol americano, e relata como […]

11. Lucas - 10 outubro, 2009

mew onde é o local de treino?
que horas começa o treino ?
tem que paga mensalidade?
gostaria de uma resposta se possivel
estou interessado em aprende futebol americano..
vlw abraços

12. jeise lopis da silva - 1 fevereiro, 2011

beijossssssssssssssssssssssss de jeise


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