jump to navigation

“Enquanto depender de migalhas, o futebol uruguaio não tem futuro”

gabitoacevedo 

Ricardo Gabito Acevedo, jornalista do diário La Republica, explica as causas da crise no Peñarol e no futebol do país.

por Luís Felipe dos Santos

O Peñarol, cinco vezes campeão da América e tricampeão mundial, ocupa a sexta posição no campeonato uruguaio, oito pontos e dois jogos atrás do líder Rampla Juniors. Nos últimos quatro anos, o Peñarol não foi campeão e só conseguiu ir à Copa Libertadores em um deles – caiu na fase preliminar. É uma crise que persiste há anos e fez o clube perder espaço, inclusive em nível internacional, para clubes de prestígio menor como Defensor e Danubio.

Essa crise institucional se arrasta há alguns anos e teve um capítulo muito importante em 2005, quando o veterano presidente do Peñarol, José Pedro Damiani, rompeu com o dono do futebol uruguaio Paco Casal. Casal havia roubado três atletas do Peñarol (Joe Bizera, Cristian Rodriguez e Carlos Bueno) que valiam, juntos, cerca de 10 milhões de dólares. Com a promessa de salários vultuosos na França e portas escancaradas no futebol europeu, os três se foram – Bizera ao Cagliari, Rodríguez e Bueno para o PSG.

pacocasal com dariosilva

Dario Silva (e) ao lado de Paco Casal, mandatário do futebol uruguaio. Foto: pacocasal.blogspot.com

A choradeira foi grande do lado carbonero. “El Contador” Damiani decidiu que não mais negociava com Casal. Curiosamente, o time montado sem os jogadores propostos por Paco teve a melhor posição desde a conquista do título em 2003. Paco Casal, além de representante de quase todos os grandes jogadores uruguaios, é chefe da Tenfield, empresa dona dos direitos de televisão do futebol charrua. Em 2006, a Tenfield pagava 70 mil dólares mensais para os dois grandes clubes uruguaios, Nacional e Peñarol. O América de Natal, um dos dois clubes que menos ganharam dinheiro da Globo no Brasil neste ano, ganha 157 mil dólares mensais.

O rompimento de El Contador e do seu filho, Juan Pedro Damiani, aconteceu por um ano. Só que neste ano, Juan Pedro resolveu recuar e voltou a negociar com Paco Casal. El Contador considerou uma traição o que aconteceu. Meses depois, em agosto deste ano, Damiani pai morreu, aos 88 anos de idade. O Peñarol é comandado hoje por um conselho deliberativo, deixando a vaga de presidente aberta.

O jornalista Ricardo Gabito Acevedo, do diário La Republica, tenta esclarecer aos leitores do Repórter Esportivo os motivos que levaram o Peñarol à esta crise institucional, e as eventuais saídas que podem existir. Em 2003, tentaram assassinar Acevedo graças às suas denúncias de corrupção no futebol uruguaio, publicadas no diário.

enterrodamiani

Torcida comparece ao enterro do ex-presidente Damiani. Foto: hinchadamanya.com


REPÓRTER ESPORTIVO: Morreu El Contador Damiani, o clube é comandado por um conselho diretivo, as eleições só acontecem em 2008. De fato, hoje, quem manda no Peñarol?

Gabito: Atualmente o Peñarol é comandado por um conselho diretivo que não tem presidente, porque os integrantes do mesmo votaram, a despeito do estatuto, que não seria preenchida a vaga deixada por El Contador. Ao mesmo tempo, o conselho aprovou a designação de Juan Pedro Damiani (Damiani Filho) como coordenador institucional. Este se transformou no presidente de fato, Os sócios não o elegeram para o cargo máximo da instituição, com o agravante que o cargo de Coordenador Institucional não faz parte do estatuto. É preciso lembrar que Damiani filho foi eleito como vice-presidente, mas renunciou ao cargo quando o empresário Francisco Casal anunciou que se os Damiani saíssem, ele estaria disposto a colocar 8 milhões de dólares para salvar o clube. Damiani filho deixou o cargo, mas Casal nunca colocou um dólar sequer. Resumindo: Damiani filho manda no clube, o que constitui uma grosseira violação do estatuto. Por isso digo que o Peñarol tem um presidente de fato, um ditador que deu um golpe de estado com a cumplicidade dos demais conselheiros que o respaldam.

juanpedro

Juan Pedro Damiani, presidente de fato do Peñarol. Foto: La Republica.

RE: Qual a influência que tinha El Contador Damiani antes de morrer?

Tinha uma influência impressionante. Ele fazia e acontecia, mas sempre dentro das normas regulamentares da instituição. Exercia o poder de forma direta, personalista, mas é justo dizer que fazia anos que o Peñarol funcionava por que Damiani colocava dinheiro do próprio bolso, por que os demais dirigentes não apresentavam alternativas de financiamento. Quando Damiani morreu, o Peñarol lhe devia 4,5 milhões de dólares.

RE: E qual a influência que Damiani filho tem agora?

Tem muita influência, mas não aponta soluções como fazia seu pai. Se auto-define como um dirigente moderno, que quer implantar um modelo empresarial no Peñarol, mas o seu discurso não condiz com a realidade atual da instituição.

RE: E a empresa Ficus Capital, tem qual influência? (Em 2006, o Peñarol anunciou parceria com a empresa Ficus Capital para sanar suas dívidas, no mesmo estilo das antigas parcerias brasileiras dom Hicks Muse e ISL.)

A presença de Ficus Capital foi influência de Damiani filho, meses antes da morte de El Contador. Sua função é meramente administrativa. A empresa se comprometeu a gerir recursos, trazer investidores para usar o potencial carbonero. Porém, até o dia de hoje, oito meses depois de estar atuando no clube a Ficus Capital não apresentou nenhuma solução. . Um grande número de sócios do Peñarol é favorável ao rompimento do contrato, pois ele não cumpriu as expectativas até agora.

RE: Quais são as perspectivas de investimentos da Ficus Capital no clube?

Falando a verdade e pensando no que eles fizeram até agora, as possibilidades são quase nulas.

RE: Sem a fiscalização do conselho, é bem possível que a parceria com uma empresa financeira torne-se uma justificativa para lavagem de dinheiro. O conselho deliberativo do Peñarol está preparado para debater com os sócios esta questão ou é maior a tentação do dinheiro fácil?

Esta foi uma das críticas que o conselheiro Ricardo Scaglia fez, quando votou contra o contrato com Ficus Capital. Não dá para descartar o risco do Peñarol ser uma fonte de levagem de dinheiro, mas neste momento, é muito difícil que isso ocorra. O governo, através do Banco Central do Uruguai, está muito vigilante para que não se concretizem operações de lavagem de ativos no mercado financeiro do país.

paolomontero
Paolo Montero se aposentou brigando com dirigentes: “Eles têm que sair”, afirmou na despedida, sobre os comandantes da AUF. Foto: La Republica.

RE: Qual foi a consequência do ato rebelde contra Paco Casal e do recuo de Juan Pedro Damiani?

De acordo com o que aconteceu depois, dá para dizer que o rompimento de Damiani filho foi proselitista, uma manobra para ganhar as eleições. Depois delas, sua atitude mudou e ele passou a ser flexível com Casal.  Isso é muito questionado pela torcida e pelos associados do Peñarol, assim como por uma parte da imprensa que se sente traída pela mudança no discurso.

RE: Peñarol é um dos maiores clubes da América Latina, mas tem apenas 5 mil sócios ativos. Em comparação, Internacional tem 54 mil sócios, o Grêmio tem 45, e são clubes que não tem a mesma quantidade de títulos. É possível dizer que os torcedores não querem dar dinheiro a um clube mal administrado, ou os resultados de campo são a melhor explicação?
 
Neste momento, os dirigentes de Nacional e Peñarol lançaram uma campanha para captar sócios em todo o país. Os torcedores de ambos os clubes têm sido indiferentes e não tem se afiliado. Nacional tem mais sócios que o Peñarol neste momento, e nos últimos meses conseguiu somar 3 mil adesões (NR: Nacional agora usa o Parque Central como estádio próprio, o que deve garantir mais vantagens) Se podemos dizer que o Uruguai se divide em partes iguais entre torcedores de Peñarol e Nacional, a realidade histórica assinala que na sua época de maior esplendor desportivo – títulos da América e do Mundo – os dois clubes nunca alcançaram grande número de associados. Em 1980, quando Nacional ganhou a Libertadores diante do Inter, no mandato de Dante Iocco, o clube alcançou 18 mil associados pagantes. Depois deste momento, nunca mais alcançou esse número. No Peñarol, o panorama é pior, por que os torcedores não se sentem confiantes na atuação dos dirigentes e como o clube não logra resultados desportivos, a indiferença é superlativa.

RE: Qual deve ser o papel da torcida na recuperação do Peñarol?

Os torcedores atuam impulsionados pela paixão e não pela razão, por isso os que têm de apontar soluções são os dirigentes. Por isso os sócios votam. A questão é que os sócios adotaram uma proposta política e depois das eleições a direção eleita fez o inverso. Por isso os torcedores são muito críticos, e diante de qualquer fracasso em campo, eles reagem muitas vezes com violência.

RE: É possível construir um estádio para os Manyas?

No atual cenário político, institucional, econômico que vive o Peñarol, isso é uma utopia. Casualmente, esta era uma das promessas de Ficus Capital; reunir investidores para construir um novo estádio. Até agora, nada mais que promessas.

torcidapenarol

Torcida do Peñarol, mesmo insatisfeita, vai ao estádio. Foto: hinchadamanya.com

RE: Sobre o futebol uruguaio em geral. É possível dizer que os contratos de TV assinados pela Tenfield são prejudiciais aos clubes?

O contrato com a empresa Tenfield SA, propriedade de Paco Casal, Néstor Gutiérrez e Enzo Francescoli, têm sido prejudicial ao futebol uruguaio. Os jogadores cada vez ganham salários menores, os clubes estão falidos mas os empresários são cada vez mais ricos. Os únicos jornalistas que apóiam a relação contratual entre a AUF e a Tenfield são os que trabalham para a empresa que tem o monopólio no país.

RE: Há alguma perspectiva de fazer futebol no Uruguai sem Paco Casal?

Eu acredito! Aliás, é a única solução a longo prazo para o futebol uruguaio. Enquanto se depende das migalhas que Paco Casal dá aos clubes, o futebol uruguaio – e por consequência a seleção nacional – não tem futuro.
RE: Você sofreu um atentado em 2003, quando denunciava a corrupção do futebol charrua. Os jornalistas esportivos que investigam os atos obscuros do esporte são cada vez mais raros no Brasil. Existe espaço para “detetives” no jornalismo esportivo?

Meu trabalho se baseia em jornalismo investigativo. Não exerço tarefa de policial, de fiscal ou de juiz. Ocupo o lugar que a sociedade dá aos comunicadores sociais e trato de cumpri-lo neste espaço fundamental que é o futebol. Estou convencido que se todos nós jornalistas investigarmos mais, trabalharmos com maior rigor profissional, em todas as áreas e disciplinas do jornalismo, teríamos uma sociedade mais protegida diante do abuso desmedido que os poderes exercem sobre ela. Vamos lembrar que nem sempre os que governam são os que mandam. O poder é uma ferramenta muito perigosa quando está nas mãos de inescrupulosos, empresários que só pensam no lucro pessoal. No âmbito do futebol, se trata de investigá-los e denunciá-los publicamente…se todos os jornalistas na sua área de trabalho fizerem o mesmo, teríamos uma democracia de maior qualidade institucional.

pacomanager

A foto de Gabito no início desse texto é do seu arquivo pessoal.

Comentários»

1. 4ª edição « - 20 junho, 2009

[…] Nesta entrevista, Ricardo Gabito Acevedo, jornalista do La Republica, explica as razões da crise no…Ricardo é nosso ídolo, uma vez que tentaram assassinar ele por denunciar a corrupção no futebol uruguaio. Infelizmente, ainda não sofremos atentados no exercício da profissão, e este é um dos motivos que traduzem a distância entre uma edição e outra. Mais que leitores, queremos pessoas que nos odeiem e falem mal da gente quando dizemos a verdade. Jornalismo não se faz sem provocação. […]

2. Simone Cristina Barbosa - 24 maio, 2010

moro no Brasil mas meus filhos são netos de Pedro Lenoble ( Uruguayo) e como meus filhos jogam futebol Guilherme é lateral , Lucas é atacante e Gabriel é Goleiro, principalmente Guilherme que tiene 16 años quer jugar pelo time de Uruguay , além de querer conhecer o País, como posso fazer para ele fazer parte desta equipe. inclusive já comprou a camiseta e na copa estaremos torcendo para o Uruguay , aguardamos contacto .

3. William - 21 outubro, 2010

Depois de conhecer essa Paco Casal, prometo que não mas reclamarei do Ricardo Teixeira hehe

4. Thiago - Porto Alegre - 8 dezembro, 2010

Além de lutar contra a corrupção, Nacional e Penarol deveriam batalhar para haver uma liga integrada com a argentina. Eles só perdem dinheiro passando o ano inteiro jogando campeonato uruguaio. Todo ano subiriam 3 argentinos e um uruguaio. Penarol e Nacional não são obrigados a se martirizar pq no Uruguai só tem time semi-profissional (16 da série A, 15 de montevideo!). Vão jogar uma liga da altura destes times!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: