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edison gastaldo

Édison Luis Gastaldo é publicitário, mestre em Antropologia Social, doutor em Multimeios e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Aplicadas da Unisinos. Dentre seus estudos antropológicos destaca-se Pátria, Chuteiras e Propaganda (Ed. Unisinos: 2002), obra oriunda de sua tese de doutoramento em que procura analisar a representação do ‘ser brasileiro’ nos anúncios publicitários veiculados durante a Copa do Mundo de 1998. Conversamos alguns dias após o término dos Jogos Pan-Americanos a respeito de muitos dos elementos políticos, econômicos e culturais presentes no esporte nos tempos contemporâneos e como a prática discursiva da mídia se insere neste meio.

Qual a diferença entre o esporte e o espetáculo esportivo?

O esporte é hoje um fato social fundamental na sociedade contemporânea. É uma atividade em torno da qual se mobiliza boa parte da energia voltada para o jogo. O jogo sim é um fato fundamental em todas as sociedades humanas, não o esporte. O esporte mais ou menos centraliza o lugar do jogo na sociedade ocidental. Mesmo quando se fala de outros jogos como jogos de azar. Tem um autor francês chamado Roger Callois que tem um livro muito bom chamado “Os Jogos e os Homens”, em que ele classifica os tipos de jogos. Alguns deles giram em torno do futebol. Então numa Copa do Mundo, por exemplo, vai aparecer jogo de tudo quanto é maneira: 0900, 500 Gols do Faustão, enfim, todas as emissoras fazem os seus sistemas se sorteios. Você aposta no resultado dos jogos, na outra você aposta quem vai fazer o primeiro gol, e tu podes competir, jogar junto com a Copa do Mundo. Então o esporte é muito mais do que vinte e dois barbados correndo atrás de uma bola. Há toda uma institucionalização do esporte em forma de federações, confederações – que em última instância vão ter o reconhecimento do Estado. O que é a Fifa então? Um organismo supranacional que regulamenta uma prática esportiva, coisas que os jogos não têm. “Pelada” se resolve ali no campo. Então é um outro jogo, muito mais próximo da vida cotidiana, do que esse esporte regulamentado, cheio de federações. Tem uma organização política que separa o esporte do jogo. A mídia tem um papel fundamental na “sacralização”, vamos dizer, desse esporte como forma predominante do jogo na sociedade ocidental. Ela constrói audiência, vive de audiência, já que vende audiências reunidas para anunciantes publicitários. Então o futebol, por exemplo, mas também os Jogos Pan-Americanos – entra tudo no mesmo sistema – eles são um produto midiático, um programa de televisão. Eles não são uma competição.

De que maneira a mídia interfere no próprio jogo?

O tempo todo. No futebol, por exemplo, antes os colegas corriam para abraçar os companheiros, agora eles correm para levantar a camiseta e mostrar para a câmera na hora em que fazem um gol. Fazendo uma falta o cara tá pensando o que a câmera vai ver na hora. Isso modifica tudo. No estádio lotado hoje temos 40mil pessoas. Na televisão temos um milhão, dois milhões de espectadores facilmente. Na Copa do Mundo, por exemplo, quanto vale as grandes seleções? Tem milhões, bilhões de dólares em campo. Qual o sentido de uma Copa do Mundo senão reunir os grandes jogadores para proporcionar os melhores espetáculos? Se for centrado na produção do melhor espetáculo possível tu tens que fornecer para os jogadores a melhor situação possível para a prática do esporte no qual eles são excelentes. Contudo, o centro da questão não está na produção dos melhores jogos de futebol possíveis, mas na definição de um produto de mídia para certos públicos que sempre têm a preferência, por exemplo, os europeus – para quem invariavelmente a Copa do Mundo cai de tardezinha, quando o cara volta do trabalho, liga a tevê e tá passando a Copa do Mundo. Aqui no Brasil a gente acorda às três da manhã, a gente vê jogos à uma da tarde. Na Copa de 94, nos EUA, havia jogos ao meio-dia na Califórnia, em pleno verão – com temperaturas de 30 à 35 graus – para que os europeus pudessem assistir aos jogos de tardezinha. Não tem luz pior para se filmar qualquer coisa do que ao meio-dia. Então, isso deixa muito claro a serviço de quem está o sistema todo. Não tem uma ênfase no espetáculo nem na excelência esportiva. É reunir audiência massiva, vender publicidade.

Em compensação, propaga-se o mito de que nesses grandes eventos esportivos entre nações são espaços onde interesses políticos e econômicos são deixados de lado em nome da paz, da lealdade…

Isso é uma ingenuidade. Porque que a torcida vaiou a Venezuela então (nos Jogos Pan-Americanos). É um evento absolutamente político. Completamente ideológico. O esporte está a serviço do nacionalismo. Vaiaram os americanos por que eles são do Bush. Vaiaram os venezuelanos por que eles são do Chavez. Ele (o esporte) já serviu muito mais (à política), é verdade. No tempo do Hitler se fazia o uso político ostensivo do esporte. Hoje esse vínculo está mais relativizado, mas nessas grandes competições internacionais ele é muito forte.

Tem-se uma idéia de que o desenvolvimento de um país está representado no quadro de medalhas…

Mede-se a “essência” de cada país. É o Brasil contra a Argentina, contra o México, contra Cuba, contra os Estados Unidos…Em que quesito? No quesito quem é melhor, em um melhor genérico. E aí vem um Galvão Bueno, por exemplo, e diz: ‘ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito melhor’. Ele está reiterando uma lógica de relação entre duas nações de uma maneira complicadíssima. Ele vai criando uma rivalidade que não existia desse jeito. Em 1978 (durante a Copa do Mundo realizada na Argentina) não tinha isso. Isso é uma criação absolutamente recente. E que só começa a ter paralelo na Argentina agora. O professor Ronaldo Helal, da UERJ, falava que é muito estranho a imprensa brasileira dar tanta importância ao Olé. Jornais como JB, O Globo, Folha de São Paulo estão buscando notícia na imprensa argentina lendo o Olé. O Olé é um jornalzinho esportivo como o Lance. Para uma hierarquia de imprensa a Folha de São Paulo tem que ler o Clarín, o La Nación. A imprensa brasileira utiliza um jornal que tem uma linha editorial meio humorística para fomentar a rivalidade de forma muito perigosa. Isso é uma coisa fascista na sua essência, é xenofobia. Aí as pessoas ficam com raiva de um país com o qual o Brasil deveria trabalhar junto por que ambos podem se beneficiar mutuamente disso. O que me incomoda é que isso é uma coisa inventada, não é como árabes e judeus que têm uma rixa milenar. A gente não precisa fomentar novas rixas. A gente precisa fomentar integração e diálogo.

Outro mito que se tem é o de que o Brasil é o “País do Futebol”. No teu livro Pátria, Chuteiras e Propaganda tu analisas um anúncio institucional do Clube dos Treze que tenta “provar” que somos o “País do Futebol”, através de uma jogada de palavras: “Se uma garota se insinua, deu bola. Se o garoto chega pra conferir, deu na trave (…)”. Eduardo Galeano escreveu texto semelhante para mostrar como o uruguaio gosta de futebol. Há algum motivo para pensar que somos o “País do Futebol”?

O Brasil se considera o País do Futebol. Um amigo meu dizia assim: ‘você sabia que o Zé Ramalho é considerado o Pink Floyd brasileiro’. Ele era louco por Zé Ramalho. ‘É mesmo. Considerado por quem?’ ‘Por mim’. Então, o Brasil é considerado o País do Futebol pelos brasileiros. Internacionalmente, o futebol brasileiro apreciado, mas é uma das muitas coisas que identificam o Brasil. São estereótipos como praia, mulher, carnaval, religião afro-brasileira, capoeira. Muitos emblemas de identidade nacional são atribuídos ao Brasil. Então tu tens uma construção política desse significado. Há uma redução. O Brasil é o país também com má estrutura de distribuição de renda, com um monte de pessoas desdentadas, um monte de outras coisas. Isso é uma redução. Eu não diria que é um mito, mas um discurso com o sentido de que no Brasil só se pensa nisso. Poderia fazer o mesmo anúncio falando só de elementos que vêm da umbanda.

E por que se usa o futebol?

Porque o futebol é fundamental no Brasil hoje. O futebol é metáfora de muitas coisas.

Tem a ver com aquela história do Nélson Rodrigues que tu citas no mesmo livro que “deixamos de ser vira-latas no futebol”?

Isso. Aconteceu em 58. O Nélson Rodrigues foi um dos grandes artífices desse discurso do futebol como identidade nacional. O futebol do Brasil aparece internacionalmente na Copa de 1938, na França. Mas é mais ou menos lido como o time de Camarões na época. ‘Olha que exótico, eles jogam futebol. E jogam bonito ainda’. Então o Brasil vai virar País do Futebol a partir de 1950, quando constrói o Maracanã para ganhar a Copa do Mundo e perde. A partir daí, parecia que toda vez que a seleção brasileira entrava em campo era para se redimir dessa tragédia. Uma nação se constrói a partir dessas narrativas.

Há uma contradição percebida hoje no mundo esportivo: as marcas procuram se vincular aos atletas para dar credibilidade a seus produtos. Por outro lado, os atletas vêm perdendo credibilidade por gravarem comerciais. Ouve-se muitos comentários do tipo “os jogadores preferem gravar um comercial que servir à seleção, à pátria”. Qual a tua opinião a respeito?

Isso se falou muito em 2006. Dizia-se que o Ronaldinho Gaúcho jogava muito melhor na propaganda do que no campo. É um jogo perigoso da publicidade. A mídia é dependente do público. E o que o público quer? Quem souber isso está milionário. E ninguém sabe. É estupidez dizer que mídia manipula, que a mídia domina. Não controla nada, ela corre atrás de algo que não sabe bem o que é. Que é o quê? O desejo das pessoas. Ela pode incentivar, mas garantir não garante. Está cheio de produtos encalhados nas prateleiras. A relação dos jogadores com dinheiro é uma coisa já consolidada no universo futebolístico. Dentro de um sistema capitalista tu vais ter uma mercantilização das formas culturais. Antes tinha o mecenato. O cara entrava sob a proteção de um grande príncipe que pagava todas as contas do cara para ele se dedicar à pintura, ou à composição musical. O esporte é uma forma de arte dos tempos contemporâneos, o cara tem que ter dedicação exclusiva para conseguir bons rendimentos. Então quanto tempo joga um jogador de futebol? ‘Ah, o cara tem que ter lealdade ao clube’. Mais ou menos, bobeou os caras negociam ele, mandam ele pro Arabirá e ele tem que ir. Ele sabe que essa vida é curta e ele tem que ganhar dinheiro.

Muitas pessoas vêm colocando atletas que conseguem aparecer em esportes pouco remunerados como “exemplo” aos jogadores de futebol. Tu achas que os jogadores de futebol vão perder algum espaço como celebridades, para atletas de outros esportes?

No Brasil há sempre dois esportes: o futebol e o que está ganhando. A diferença do futebol para os outros esportes é imensa, não dá para comparar. Quando tem o Guga, todo mundo gosta de tênis. Quando tem o Senna, todo mundo gosta de Fórmula 1. Basta ver a audiência da F-1 como está agora e como era em 93, 94. Pergunte as pessoas qual foi a última vez que elas assistiram a uma corrida de F-1. Nos Jogos Pan-Americanos apareceram muitos heróis brasileiros. O último foi o Franck Caldeira, da maratona. Todos os patrocinadores dele já estão se mostrando para pegar uma beirinha de reconhecimento. Daqui a pouco desaparece tudo. São coisas esporádicas.

Então essa falta de identificação do público para com os jogadores não pode causar uma queda na popularidade do futebol?

Acho que não. A gente não tem visto isso. O futebol tem cada vez mais audiência. A situação tende a ser cada vez mais com o clube e menos com os jogadores. Os jogadores estão mais voláteis. O Pelé hoje em duas temporadas no Santos já iria para a Europa. Naquela época havia muita política restritiva de circulação de pessoas e o mercado hoje está muito mais rápido.

Quando tu pesquisavas a construção social da masculinidade nos esportes de combate tiveste o insight para pesquisar a propaganda na Copa do Mundo de 1998. Tu segues pesquisando o esporte?

Sim, estamos pesquisando os bares que transmitem partidas de futebol. É um fenômeno que vêm crescendo. As pessoas lotam os bares para assistir os jogos na televisão e assim que acaba a partida vão embora.

Felipe Prestes

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Comentários»

1. Tati - 7 dezembro, 2007

Muito boas as afirmações do professor. Não podemos esquecer que o esporte é um ambiente político sim e de grande impacto na sociedade. O estudo social do esporte é muito importanto, tanto quanto o estudo do mesmo nas áreas de fisiologia, anatomia, medicina, etc. apesar de que isso falta em muitos cursos de Educação Física nas universidades brasileiras. O esporte passou já da afirmativa de que “pára guerras”, pois é sabido que o esporte foi utilizado para transpassar as ideologias políticas de países como Estados Unidos e a extinta União Soviética.
Parabéns.

2. Diego - 25 julho, 2008

Olá estou começando á escrever meu projeto de conclusão de curso em educação física. Meu tema será “As diferentes formas de manifestações das torcidas – torcedores de futebol”.
Gostaria se possivel de sugestões de bibliografias que eu posso me basear
obrigado

3. Fabio Honorato Mamede - 30 novembro, 2010

Professor, você está de parabéns!
li o seu livro e achei magnífico!

4. Fernanda Balestrin - 5 abril, 2012

Oi Professor!
Aqui quem vos fala eh uma antiga colega de faculdade e gostaria muito de entrar em contato com você. Por favor qual seu email pessoal, estou morando no Rio de Janeiro! Abraço. Feu

5. Alberto - 17 abril, 2012

Já visitei a Argentina e lá me trataram super bem, ou seja, é uma rivalidade ridícula no futebol. Faltou falar de um “pequeno detalhe” mas que envolve o bolso de todos nós brasileiros: quanto será roubado, desviado, afanado, subtraído “em nome” da Copa 2014? No Brasil, onde ninguém é preso, punido ou condenado por roubos de dinheiro público, “quem será” que vai pagar a conta no final deste “maravilhoso e alienante” evento? Isto não tem nada de patriótico, mas sim, vai servir para engordar a conta de alguns corruptos, principalmente da “classe política”! Abraço de NH.


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