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Um número, duas decadências


fotos: blog voudekombi.blogspot.com/goal.com
A carta do tarô de número 16 é a Casa de Deus, a Torre Fulminada. Indica destruição, uma vez isolada. Numerólogos associam este número a desgraças pessoais. Na dupla grenal, o número 16 traz a mística de Mário Jardel e Adriano Gabiru, autores de gols decisivos e responsáveis por ocasos semelhantes em suas carreiras.
Segundo Paulo Urban, do site Amigo da Alma, A Casa de Deus é o arquétipo da destruição, das mudanças avassaladoras em nossas vidas. Por vezes, somente algo assim tem força capaz de nos arrastar para longe do Diabo que antes nos prendia. A Torre fulminada mostra o ego abalado pelo grito de um inconsciente incontido, simbolizado pela labareda de fogo que explode a cúpula da Torre, cuja forma lembra uma coroa, real adorno de uma consciência que se esquece muitas vezes de perceber a realidade por detrás da realeza”. Tais afirmativas podem ser traduzidas perfeitamente nas carreiras de Adriano e Jardel. Ao mesmo tempo que libertaram os demônios do pessimismo nos torcedores de Inter e Grêmio, foram elevados à realeza pelos gols que marcaram. Porém, nunca foram homens com estrutura suficiente para suportar o ônus de tamanha fama.


foto: blog libertadores1995.blogspot.com

Mário Jardel foi entrevistado por Régis Rösing no Esporte Espetacular, da Globo, de 27 de abril. Admitiu o uso de cocaína, consequência da separação, da depressão, da bebida e das más companhias. No meio da década de 90, quando se destacou no Grêmio, Jardel era conhecido pela sinceridade e pela suposta burrice. Declarações ingênuas e estúpidas dele eram divulgadas na imprensa, ainda que muitas delas não fossem verdadeiras. Para ele, pouco importava. Levantava taças, fazia gols de cabeça – apesar da sua enorme dificuldade com a bola nos pés – e ganhava muito dinheiro. Vinte e dois gols em 39 partidas no Vasco, onde era odiado. 67 gols em 73 jogos no tricolor porto-alegrense, onde fizeram uma campanha com a torcida para mantê-lo no clube. Impressionantes 130 gols em 125 jogos no Porto. 22 gols em 24 jogos no Galatasaray, incluindo uma vitória histórica na Supercopa Européia sobre o Real Madrid. 53 gols em 49 jogos no Sporting de Lisboa. Maior goleador da Europa. Maior goleador de Portugal por oito temporadas.

A partir daí, a decadência. Largou os treinos, engordou, foi mandado embora. Perambulou por Itália, Inglaterra, Argentina, Espanha, Chipre, Austrália e até Brasil, com uma passagem nula pelo Palmeiras e um gol solitário pelo Goiás. Fez mais três no Beira-Mar de Portugal, somando quatro gols em quatro anos. Além dos atrasos ao chegar nos clubes, ainda espancou um caseiro na sua residência, em Fortaleza. Era um jogador visivelmente abalado por alguma coisa séria. Ninguém poderia dizer, entretanto, o que era.

Louvável a coragem de Jardel ao admitir o vício em rede nacional. Evita pequenas fofocas, evita o dito pelo não dito, abre uma situação em que toda ajuda é necessária. Muita gente ganhou prestígio, fama e fortuna graças ao gols de Jardel. Todas essas pessoas, uma vez de bom coração, terão condolências ao ver o drama do ex-centroavante. Duvido que um Luiz Felipe Scolari, por exemplo, não tenha ligado para ele ao saber da sua declaração na Globo. Acho que ele não tem condições de voltar ao Grêmio ou ao Vasco, como quer. Talvez a sua maior contribuição venha por outro caminho, ensinando atletas jovens a completar cruzamentos e a nunca seguir a trilha do deslumbre. Todo homem de 34 anos é jovem demais para desabar num rio de desgraças.

Adriano, o anti-herói


foto: globoesporte.com

Escrevo este texto numa segunda-feira chuvosa, 28 de abril. O Inter se recupera da derrota sofrida para o Juventude na primeira final do campeonato gaúcho, Alex, Sorondo e Guiñazú estão no Beira-Rio tentando solucionar seus problemas físicos. Correm em separado, com o auxiliar de preparação física, Michel e Adriano Gabiru. Os dois preferidos de Abel Braga, que há pouco mais de um ano eram escalados como bois de piranha para tentar uma improvável vitória no Fortín, contra o Vélez Sarsfield. Para Abel, Adriano só joga no Inter hoje se chover canivetes.

Os canivetes estão chovendo hoje, mas Adriano não voltará ao grupo. Com o nome escrito na história do Inter pelo gol de 17/12/06, quando era o homem errado na hora e no local corretos, Adriano só será lembrado nos aniversários do Mundial. Aniversários cuja comemoração tende a esmorecer com o passar dos anos. Os gremistas debochados dizem que o Inter renega o maior jogador da sua história, numa bizarra comparação com Portaluppi; os colorados irônicos dizem que ele só serve para as festas, nunca para entrar em campo.

Na prática, a carreira de Adriano se perdeu. Dispensado de Figueirense e Sport por falta de compromisso profissional, Adriano evidenciou problemas psicológicos desde os tempos de Atlético Paranaense. O clube rubro-negro, na época, achava o alagoano um jogador muito importante, por isso contratou uma turma de profissionais – inclusive uma professora particular de português – para ajudá-lo. Mais adiante, foi levado à França pelo seu amigo Abel Braga, e fracassou. Igual destino teve no Cruzeiro. Numa loucura financeira, o presidente do Inter Fernando Carvalho resolveu que valia a pena apostar nele por ser um sonho antigo e pagou mais de um milhão de dólares no seu passe.Teve alguns momentos de brilho, muitos momentos de sombra, e a suprema glória no Japão.

Ao contrário de Jardel, que assumiu seus problemas e vícios, Adriano ainda não disse publicamente qual o seu problema. As fofocas falam em mulheres ligeiras e álcool, ainda não chegaram nas drogas pesadas. Perto de Adriano, mas vítima das mesmas fofocas, o ocaso atingia outro jogador que um dia foi craque – Chiquinho, banido do grupo do Internacional campeão em 2006 por reclamar demais. Este, porém, nunca usou o número maldito.

Afora as coincidências numerológicas, ainda há tempo para Adriano confrontar os seus demônios e recuperar seu futebol. Resta saber se há motivação para isto.

Comentários»

1. Um número, duas decadências « - 28 abril, 2008

[…] A carta do tarô de número 16 é a Casa de Deus, a Torre Fulminada. Indica destruição, assim isolada. Numerólogos associam este número à desgraças pessoais. Na dupla grenal, o número 16 traz a mística de Mário Jardel e Adriano Gabiru, autores de gols decisivos e responsáveis por ocasos semelhantes em suas carreiras. Continue lendo… […]


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