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Pela vivência completa do futebol

Luís Felipe dos Santos (luisfelipe@gmail.com)

torcida no passo d’areia

A vivência do futebol, desde sempre, está ligada ao estádio. Ninguém sente o peso de uma bola de borracha no pé descalço pela televisão. Muito menos o barulho de uma arquibancada antes daquela falta na frente da área. Muito menos o cheiro de pipoca misturado ao suor tenso e o grito incessante do ambulante. Não há aparelho que consiga reproduzir a dor de ouvir o grito de gol da torcida adversária numa final de campeonato, a alguns metros de si. A vivência do futebol nunca é completa pelo tubo de imagem, ou pela fibra ótica. Não importa quão bons sejam os atletas a correr pelo gramado.

Recentemente, num fórum de discussão do futebol europeu no orkut, levantei a idéia de que muito da mitificação do futebol europeu hoje em dia está ligada à produção massiva de bens simbólicos pelos meios midiáticos. Bourdieu falava isso em relação à política; Debord falava da sociedade do espetáculo; Baudrillard falava em simulacros; Cláudio Cabral, menos prolixo, simplesmente diz que é uma farsa. A cultura monetarista e o marketing massivo que envolvem o futebol-negócio fazem do futebol europeu uma escola indestrutível, de clubes gigantes, jogadores inacreditáveis. A Liga dos Campeões é o campeonato mais difícil do mundo, com os melhores times. Tudo é melhor no velho continente. Os cucarachas do terceiro mundo só conseguem ganhar deles com esforços sobre-humanos.

Carlos Bianchi

Carlos Bianchi cansou de levantar taças diante dos europeus

Todas as estatísticas e resultados provam uma suposta superioridade do futebol da América do Sul. Temos o mesmo número de Copas do Mundo, mesmo tendo sediado menos; tem mais mundiais e intercontinentais entre clubes. O futebol europeu melhorou muito em qualidade após a entrada dos sul-americanos, muitos deles são ídolos nos maiores clubes do mundo. Isso não quer dizer que ninguém joga nada na Europa. Sindelaar foi craque, assim como Kubala, Cruyff e Van Basten; hoje em dia, Francesco Totti, Paolo Maldini e Cristiano Ronaldo são craques a ser reverenciados. Nos resultados objetivos, a superioridade terceiro-mundista é incontestável; a partir daí, pesam os critérios subjetivos.

Para mim, o critério subjetivo mais importante é a vivência do estádio. Não dá para dizer qual futebol é superior sem ver e comparar de dentro da arquibancada.

Por isso, a minha revolta quando leio comentários do tipo: “Eu prefiro ver em casa, sentado no sofá, pagando 2,50 por uma Coca-Cola de dois litros ao invés de pagar o mesmo por uma latinha”. Não perguntei a Thiago ‘Kalvin’, o autor da frase naquele fórum de discussão, se ele também preferia baixar um filme pornô de graça do que fazer sexo, pois as camisinhas e o motel são mais caros e o flerte dá mais trabalho. Achei que tal analogia poderia ofendê-lo. Logo, apenas afirmei que ele comprovava exatamente a minha teoria: a torrente de bens simbólicos produzidos pelo futebol europeu (peças publicitárias, camisetas, fotos, videogames, transmissões de TV) podem enganar qualquer um, especialmente aquele que não está acostumado a ver o futebol sem um tubo na mediação.

Ofendido de morte, Thiago ‘Kalvin’ pediu a minha expulsão do fórum. Eu ri bastante da afetação e tentei diminuir os mal-entendidos. Que nada. Fui expulso sumariamente da comunidade. Para sempre. “Por unanimidade, decidimos mantê-lo fora”, dizia um recadinho da moderação no meu perfil.

O leitor pode imaginar que eu quero divulgar um fato besta, que não merecia tamanho rancor. É evidente que é uma coisa idiota, que não deveria provocar nada além de risadas. Porém, dois meses depois do ocorrido, penso que esse pequeno fato demonstra duas tendências bem preocupantes no nosso meio de diletanismo futebolístico.

A primeira: alguns jornalistas, quando possuem o poder de controlar a liberdade de expressão, se tornam seres absolutamente autoritários e prepotentes. Por um simples motivo: eles sabem o poder que têm as palavras. A eminência parda da comunidade é o jornalista Leonardo Bertozzi, do site futeboleuropeu.com.br. Bertozzi tinha um site bem competente, com tabelas atualizadas e notícias, mas nenhum conteúdo opinativo interessante. Casou com a Trivela, o melhor site em produção de conteúdo opinativo sobre futebol internacional do país, e uniu a massa ao molho. Tem alguma projeção, aparece de vez em quando na BandSports e na ESPN Brasil, e consegue levar consigo um pequeno séquito de puxa-sacos. Não sei se foi ele o autor da minha expulsão, ainda que desconfie disso pois ele deu a última palavra nos tópicos em que havia o debate. Olhei para os perfis da moderação e vi vários jornalistas, futuros chefes meus ou colegas de profissão.

Confesso que fiquei um tanto decepcionado. Não com a minha expulsão, mas com o desrespeito à discordância. Um outro debatedor, por concordar comigo, também foi “suspenso”. Os tópicos foram proibidos de continuar, um pouco antes do meu banimento definitivo. Mais adiante, em outros foros, esses mesmos jornalistas, como Bertozzi, vão clamar pela liberdade de expressão em outras situações, e certamente serão incapazes de se olhar no espelho sem um pouco de óleo de peroba na cara.

Doble Visera

Os guris de apartamento têm medo disso aqui

A segunda tendência: a esterilização do futebol. Uma reportagem recente da Revista Piauí, um tanto saudosista, afirmava como isto estava acontecendo na Inglaterra. Como todos os comerciantes de bens simbólicos de lá também vendem aqui, a tendência está continuando. Querem expulsar as torcidas organizadas dos estádios. Querem retirar as bebidas alcóolicas. Querem encarecer os ingressos. Querem incentivar a venda de pay-per-view.

Quem compra essa idéia são pessoas como Thiago ‘Kalvin’. Por que eu vou sair de casa para ver um jogo ruim, se os melhores jogos passam na frente da televisão? O estádio é violento, é sujo, é feio, é mal-cheiroso, é caro. Vale mais a pena comprar uma TV de plasma. Para assistir West Ham e Bolton tocando a bola de lado e jogando pelo resultado. Para ver o atacante do Flamengo dar o mesmo discurso antes e depois de todas as partidas. Para ver o juiz dando cartão amarelo por que drible é provocação. Para condenar as provocações ocorridas em Figueirense X Avaí, pois aquilo é uma falta de respeito com os outros profissionais.

No sábado, fui assistir São José X Caxias pela segunda fase do campeonato gaúcho. Não sou torcedor de nenhum dos clubes. Fui por gostar do futebol. Assim como os idosos, os senhores, as senhoras, os adolescentes e as crianças que estavam na arquibancada atrás do gol. Ninguém parecia triste com a lata de refrigerante cara, a iluminação ruim, o cheiro de churrasco defumando a entrada. Por que havia algo mais importante que tudo aquilo: o futebol, jogado diante dos olhos, esse esporte que tem o dom de fascinar pelas belas jogadas e também pela cultura ao seu redor.

O tubo, a tela, dão pouco prazer diante da vivência da proximidade. A proximidade do diálogo, evitada pelos proto-ditadores; a proximidade do campo, desprezada pelos guris de apartamento. Espero que a minha filha goste de vivenciar o mundo – e quem sabe o futebol – utilizando todos os cinco sentidos.

(a primeira foto é minha; a segunda, retirada do site blackao.wordpress.com; desconheço a autoria da terceira)

Comentários»

1. Pela vivência completa do futebol « - 11 abril, 2008

[…] Pela vivência completa do futebol 11 Abril, 2008 Posted by reporteresportivo in Uncategorized. trackback A vivência do futebol, desde sempre, está ligada ao estádio. Ninguém sente o peso de uma bola de borracha no pé descalço pela televisão. Muito menos o barulho de uma arquibancada antes daquela falta na frente da área. Muito menos o cheiro de pipoca misturado ao suor tenso e o grito incessante do ambulante. Não há aparelho que consiga reproduzir a dor de ouvir o grito de gol da torcida adversária numa final de campeonato, a alguns metros de si. A vivência do futebol nunca é completa pelo tubo de imagem, ou pela fibra ótica. Não importa quão bons sejam os atletas a correr pelo gramado. Continue lendo […]

2. Renato José - 16 abril, 2008

Sensacional esse seu texto e sua critica à super valorização do futebol europeu, a comunidade futebol europeu no orkut, chega a ser bizarra quando ela faz censura a seus participantes que venham a falar algo contra o futebol europeu – pior é q que faz a censura são pseudos jornalistas (ridiculo)

Muito obrigado por esse texto, precisamos d pessoas q pensem, pessoas q não sejam só mais um boi na toada.

Valew

3. 5ª Edição « - 20 junho, 2009

[…] Prosseguindo, estamos de volta, ou pelo menos tentando. A nova edição traz uma entrevista feita por e-mail com o grande mestre Tostão por Luís Gomes. Pela primeira vez, temos uma participação internacional, da qual nos sentimos muito honrados, com a crônica “Outro fútbol es posible”, escrita pelo argentino Manuel Podestá. Também nesta edição, a RE volta polemizando com Luís Felipe dos Santos abordando o racismo no futebol e Felipe Prestes tratando sobre a homofobia no esporte. Luís Felipe também escreve a coluna: Pela vivência completa do futebol. […]


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