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O torcedor não pode mandar no time

 Luís Felipe dos Santos (luisfelipe@gmail.com)

 O jornalista e são paulino Caio Maia, como todo bom torcedor que exerce a profissão no esporte, corneteia o treinador do seu time. A diferença é que Caio Maia admite o time para qual torce, ao contrário da imensa maioria dos torcedores-cronistas gaúchos que posam de isentos. Maia detesta Muricy Ramalho, treinador do qual eu sou fã, mas não vamos debater isso.

A questão é que Maia fez uma mea-culpa no blog do trivela.com, dia desses. Os resultados de Muricy são incontestáveis e Maia tenta entender porque.  No segundo parágrafo do seu post, ele diz o seguinte:  “Um exemplo: no próximo jogo, ele pode até achar que Borges marcaria um gol, e Aloisio, não. Se, porém, achar que é importante colcoar Aloisio em campo para que este “ganhe moral”, o treinador são-paulino fará isso. Sacrificará um jogo, mas ganhará no todo da temporada. Foi muito criticado por isso, inclusive por mim, mas tem razão, e as campanhas do Sâo Paulo nos dois últimos anos provam isso. Se fosse eu o técnico, teria “queimado” o Leandro. Muricy o recuperou. Sorte dos são-paulinos que o técnico não sou eu.”

Eis a grande diferença entre o treinador e o torcedor. A frase que todo treinador tem os seus “bruxinhos”, jogadores geralmente voluntariosos que jogam menos que os seus reservas, mas têm a confiança do treinador, é verdadeira. Muitas vezes, um jogador bom, que cumpre uma função necessária na idéia tática do treinador, é execrado pela torcida que pede pelo seu reserva, como no caso entre Aloísio e Borges. Quando o reserva joga bem, o torcedor quer a caveira daquele que saiu, nunca mais vê-lo pela frente, mandar uma passagem para ele se mandar a Katmandu. Só que o torcedor não convive todos os dias olhando para a cara dele, nos treinos, nem avaliando o seu desempenho. Quando o treinador fala que Borges pode jogar bem, mas Aloísio é o seu titular, ganham os dois. Aloísio ganha por que conta com o carinho da única pessoa que pode apoiá-lo; Borges por que sabe que tem de trabalhar muito para continuar tendo oportunidades.

O inverso disso é o que aconteceu no Botafogo. A derrota humilhante para o River Plate guarda muitas semelhanças com o desastre que o Internacional sofreu em 2005, contra o Boca Juniors. Ambas as equipes tinham uma vantagem que confirmavam na Argentina, mas não conseguiram sustentar e ainda foram goleados. Claro, a vantagem do Botafogo era maior. Claro, o Inter ainda disputava o título nacional. Grandezas diferentes, mas impacto igual. Na ocasião, o torcedor colorado queria a cabeça de Clemer, o fígado de Vinícius e o corpo esquartejado de Muricy. Contava com o suporte de quase todos os setores da imprensa – muitos torcedores colorados disfarçados de isentos -–e muito provavelmente de alguns diretores do clube. A diferença estava no comportamento da direção e da comissão técnica.

Muricy não fez como Cuca, que largou o time à própria sorte. Muricy defendeu Clemer, Vinícius, e todos os outros que entregaram o outro na Bombonera. Estes confiaram em Muricy, pois só ele poderia defendê-los. E terminaram a temporada contestados, porém com dignidade. Clemer ajudou a carregar o Internacional no glorioso 2006; Vinícius conseguiu uma transferência européia. O Inter terminou o campeonato como vice-campeão (há controvérsias, mas isso é com o Dualib) e foi à melhor Libertadores da sua história. No Sábado seguinte à desgraça, goleou o Santos por 4×0.

Nem Fernando Carvalho nem Vitório Píffero foram ao microfone dizer que o Inter era um time de frouxos. Bem mais responsáveis que Carlos Augusto Montenegro, sabiam que um time desautorizado é um time sem a menor obrigação de vencer. “Ah, nós somos frouxos? Somos bonecas? Então de que adianta correr?”, se pergunta hoje o jogador botafoguense.

O Botafogo afunda no campeonato por que tem no seu quadro diretivo um profissional que ficaria bem melhor na arquibancada, com uma corneta e uma faixa de protesto. Os jogadores podem ganhar muito dinheiro para fazer o que fazem, mas sem apoio de ninguém fica muito complicado produzir. É por isso que tantos fatos do vestiário são incompreensíveis para a nossa vã filosofia.

(a foto é do site gazetaesportiva.net)

Comentários»

1. 3ª Edição « - 12 outubro, 2007

[…] sempre, também marcam presença as colunas de nossa equipe. Luis Felipe dos Santos fala da sempre conflituosa relação treinador-torcedor. Felipe Prestes faz uma análise de jogos internacionais que chamaram sua atenção no fim de […]


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