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o radinho

  Felipe Prestes (felipenprestes@gmail.com)  

Aconteceu com um amigo. Um dia ele decidiu que ia parar de beber e de fumar e se mandou para a praia em pleno mês de julho. Mais uma dessas praias do litoral norte gaúcho em que faz frio até no verão por causa do vento. Em julho, então, os dias eram cinzas, terríveis. Encontrava-se praticamente deserta a tal da praia. Uma semana longe da civilização, alimentando-se bem, fazendo exercícios e meditação – ele não tinha a menor idéia de como se meditava – seria o ideal para alguém que quer largar o cancerígeno e a bebida, pensou ele.

E lá se foi o cumpadre para a praia. Naquela semana precisava pensar bastante na vida, repensar hábitos – o fato de não haver televisão, Internet, ou qualquer coisa para ler ajudaria bastante. Contato com o mundo “externo” só mesmo na hora de comprar no mercado os legumes da sopa que tomaria religiosamente todos os dias de sua estada pela praia. E um radinho – com o qual (lembra perfeitamente) escutou um jogo entre Grêmio e Santos e um da seleção Brasileira.

Um radinho! Entregara-se ao mundano. Não conseguiria não ouvir o jogo do Grêmio. Durante duas horas fez o que parece o extremo oposto às “meditações” na casinha dos salva-vidas, às sopas de legumes: teve raiva, exacerbou sentimentos, quase lhes saltaram as veias do pescoço.

Mas o futebol talvez tenha algumas semelhanças com a meditação, refletíamos, eu e o amigo, enquanto ele me contava a estória. Depois que o juiz apita – ou até horas antes – nada mais importa, não há nenhum apego às coisas materiais. O aluguel, o chefe, a patroa são esquecidos, o que importa é uma outra realidade que se coloca diante de nós no campo, na televisão, ou no radinho.

Absortos, temos uma série de novos problemas: o lateral que não sabe cruzar, o juiz filho-da-puta, o treinador imbecil. Há a possibilidade de soluções maravilhosas e este mundo, ao contrário da vida cotidiana, nos dá certezas após duas horas: sim, somos superiores, e aí teremos ainda mais algumas horas de êxtase após a peleja. Ou não, ou somos inferiores, e aí o ideal para curtir essa trip de forma saudável é esquecer isso e tocar a vida. As duas horas de transe foram boas, não fiquemos tristes, pois.

É como a bebida, ou tantas outras coisas da vida. Tem que saber extrair o melhor, sem exageros. Acho que não foi isso que o meu amigo pensou enquanto sofria no radinho. Mas acho que o radinho teve alguma outra influência no fato de ele não ter conseguido parar de beber nem de fumar.

Comentários»

1. 2ª Edição - É hora de continuar « - 26 setembro, 2007

[…] por textos variados, sem nenhuma restrição de forma ou conteúdo. Dessa vez, Felipe fala sobre o radinho; Luís Eduardo conta sua relação com seu primeiro ídolo, Nelson Rodrigues e o futebol do […]

2. Eduardo Guimarães da Silva - 8 novembro, 2007

Eitcha galó!!! Aplausos


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