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Caíco, Nelson e futebol do passado

Luís Eduardo Gomes (luisgomes@yahoo.com.br)

 

Meu primeiro ídolo no futebol atendia pela alcunha de Caíco. Eu, então com apenas 6 anos, elegi o “craque” juvenil da conquista da Copa do Brasil de 92 como o símbolo de meus primeiros anos como colorado. Aos meus olhos, Caíco não jogava, flutuava em campo. Alado, passava pelos jogadores adversários como uma criatura mitológica – grega, persa, viking, o leitor pode escolher – sempre a procura de um feito épico. Em suma, sobrenatural.

Antes que me perguntem se o Caíco de que falo é o mesmo que hoje entra e sai do time do Coritiba, teve uma carreira apagada, passando, no máximo, por times médios do Brasil e do mundo; respondo: não, não é. Bom, até pode ser que o ícone, o signo – analisando semioticamente – seja o mesmo, mas, com certeza, a representação não é idêntica.  

Mas voltando ao craque juvenil, um dos dias mais tristes da minha infância foi aquele em que descobri que meu primeiro ídolo não vestiria mais a camisa vermelha. Ele zarpava da beira do rio para a beira da praia. Para Santos, mais precisamente. No entanto, acabei superando isso. No lugar de Caíco vieram outros, Leandro Machado – mortal centroavante -, Fabiano “Cachaça” – praticamente Valdomiro reencarnado. Se os três jogassem atualmente, pelo menos o que minha memória diz que jogavam a época, fatalmente teriam vaga nos grandes clubes hoje.

Claro, também não posso esquecer o evento futebolístico mais importante de todos: a Copa de 94 – certamente a melhor delas. Infelizmente, e não entendo o porquê, muitas pessoas apareciam na TV para blasfemar contra aquela grande ópera futebolística de Stoichkov, Hagi, Batistuta, Dahlin, Baggio, Klinsmann, e tantos outros craques que nunca serão superados por conterrâneos. Na verdade, assim pensam os jovens da minha geração. É lugar comum entre quem tem 19 e 22 anos, o campeonato mundial dos Estados Unidos é imbatível. Mesmo que nasçam novos Puskas, Cruyffs, Di Stefanos, Riveras, Pelés, Garrinchas, será difícil superá-lo.

Essa semana, peguei para ler o livro “Á sombra das chuteiras imortais”, uma coletânea de crônicas de Nelson Rodrigues. Em um dos textos, logo no início, está cunhada a frase: “o passado tem sempre a razão”. Ou seja, em 1955, Nelson já falava de como o futebol era mais romântico nos tempos idos. No caso, nas décadas de 10 e 20. Retomando, a mesma impressão tem a minha geração sobre a década de 90. “Quando se jogava o futebol de verdade”, pensamos. Assim também pensarão os garotos de oito, nove, onze anos de hoje, quando daqui a 15 esbravejarem que não se fazem mais Kakás, Ronaldinhos, Cristianos Ronaldos, Gerrards, Drogbas como em seus tempos.

Contudo, há também aqueles que preferem escutar os mais velhos, os sábios e catedráticos comentaristas que falam sobre a morte do futebol, sobre um suposto desinteresse – deles na verdade, e não necessariamente do público. Eles difamam os heróis de seu tempo e veneram os de outrora, embora nunca tenham visto estes jogarem.

Feliz daquele que, passionalmente, tem um passado para fantasiar, um tempo para guardar com carinho. E pobre daquele que se apega ao passado dos outros, que canta uma época alheia. Relatada, porém irreconhecível.

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Comentários»

1. Pinky - 29 setembro, 2007

Muito bom… parabéns cara.

2. Eduardo Guimarães da Silva - 8 novembro, 2007

Excelente texto, o passado sempre é mais nostálgico que o presente. Até mesmo em questões sociais como a célebre frase ”antigamente o Brasil era melhor” ou ”As escolas públicas já foram boas, hoje é uma merda”. As pessoas tendem a celebrar o passado como algo melhor. Bela percepção esta tua.

3. Luciana - 4 janeiro, 2008

O Caíco é meu ídolo tb!!!!!

4. 2ª Edição – É hora de continuar « - 20 junho, 2009

[…] forma ou conteúdo. Dessa vez, Felipe fala sobre o radinho; Luís Eduardo conta sua relação com seu primeiro ídolo, Nelson Rodrigues e o futebol do passado; e Mariana fala sobre seu primeiro Gre-Nal na torcida […]


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