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cadê os analistas?

Procura-se um analista de futebol

O blog da redação do Trivela publicou recentemente uma análise bem-humorada do jornalismo esportivo que vigora na grande mídia brasileira. Entre os tipos mais folclóricos (Fernando Calazans, Chico Lang, etc.) existem alguns raros analistas de futebol no seu sentido mais técnico. Daqueles que pegam uma prancheta e dissecam as estatísticas do time: quem deu mais passes certos, errados, quantas conclusões, quantas triangulações, jogadas pelo flanco, pelo meio, etc. Segundo Caio Maia, que denominou esta corrente de “PVCismo”, é uma tendência “moderna, infelizmente ainda pouco difundida, que acredita que, para comentar futebol, é preciso assistir jogos, conversar com treinadores e estudar.”

Esta tendência moderna não encontra nenhum exemplar aqui na Província de São Pedro. O Rio Grande do Sul, tão orgulhoso da sua vanguarda e dos pensamentos à frente do Brasil, não tem praticamente NENHUM analista de futebol capitaneando as coberturas da grande mídia. Não falo em comentarista: falo em analista, aquele que estuda o esporte. Nossos comentaristas se dividem entre os senhores acomodados que se trancaram em um estilo há muitos anos e os jovens que querem um lugar ao sol criando polêmicas sem sentido.

Quem perde com isso é o torcedor. Obrigado a suportar análises irracionais, não consegue compreender quais os reais problemas do seu time.

Um exemplo claro disso aconteceu na partida entre Internacional X Santos, ocorrida nesta quarta-feira. O Inter não conseguiu a vitória, mas apresentou um domínio de posse de bola raro para os visitantes da Vila Belmiro. Não conseguiu traduzir, porém, esse domínio em conclusões a gol. Dito isto, o que vemos na imprensa? Cláudio Cabral: “Abel não entende nada de futebol. O Inter não constrói uma jogada no meio.” Ruy Carlos Ostermann: “O testemunho de quem viu o jogo da Vila é que o Inter não teve organização e nem uma atuação uniforme”. Nando Gross: “Uma absoluta ausência de sistema coletivo”. As demais análises não fogem muito desta linha.

Ora, mas como poderíamos ter uma completa ausência de sistema coletivo se o Internacional dominou o jogo, no meio campo, com o toque de bola? Como um time sem sistema coletivo alcança por quatro vezes a grande área adversária através de tabelas e triangulações – duas delas com impedimentos de Adriano?

Falta alguém, na imprensa esportiva gaúcha, que faça análises através de números. O que temos atualmente é uma exacerbação do jogo de palavras, onde ganha quem fala mais alto ou mais forte. Vemos comentários como “Magrão não acerta um passe”, “Tuta não consegue concluir”, “Patrício não acerta um cruzamento”, mas raras vezes estas palavras estão embasadas nos números de passes, conclusões e cruzamentos naquela partida.

Perseu Abramo, no livreto “Padrões de Manipulação da Grande Imprensa”, citou que os meios de comunicação, por conta dos seus interesses corporativos, manipulam a realidade para construir a sua própria subjetividade – e a esta subjetividade chamam de “imparcialidade jornalística”. Quando perguntado como deve ser o jornalismo mais fiel possível à realidade, responde o seguinte: “O conhecimento da realidade é tanto mais objetivo quanto mais o sujeito observador não se prende às aparências, procura envolver totalmente o objeto da observação, busca seus vínculos com o todo a qual pertence, bem com as interconexões internas dos elementos que a compõem, investiga os momentos antecedentes e consequentes no processo do qual o objeto faz parte, reexamina o objeto sobre vários ângulos e perspectivas”.

Isso também vale para o jornalismo esportivo. Quanto mais embasarmos nossas teorias e idéias, melhor será a compreensão dos fatos.

por Luís Felipe dos Santos

Comentários»

1. Felipe - 11 setembro, 2007

Assino embaixo!

2. Muniz - 9 outubro, 2007

sim, e é por isso que prefiro ler sites como o Carta na Manga, do ilustríssimo Vicente Fonseca, a ler os colunistas de ZH, por exemplo.

esta é a primeira vez que acesso o ‘repórter’, e devo dizer que está bem bom.

abraço.

3. André Baibich - 17 outubro, 2007

Primeiramente, parabéns pelo “repórter” e pelo texto acima. Concordo plenamente com o que foi defendido pelo Luis. A maior prova disso é que a imprensa gaúcha insiste em escalar o Grêmio com 2 atacantes quando está claro que existe uma linha com 3 articuladores, ficando apenas o Tuta à frente. Já no Inter, ninguém é capaz de dar uma explicação mais concreta do que “não dá para jogar com 4 volantes” para a falta de produtividade do meio-campo. Será que ninguém vê que o Abel promove trocas de posição constantes no setor, o que confunde os jogadores que há pouco tempo estão atuando juntos?


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