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Atletas do Passado – Bráulio (pt.2)

A carreira do Garoto de Ouro, no entanto, não se limitou apenas a sua passagem pelo Internacional.

RE – E como era enfrentar o Internacional depois?

Bráulio: Era horrível. Eu vim enfrentar o Internacional a primeira vez quando eu estava no Coritiba. Estava emprestado e tinha uma cláusula que eu não podia enfrentar o Inter. Eu dizia ‘tudo bem, não quero jogar’. Aí começaram a me cutucar, na Zero Hora e tal. Ai eu peguei o telefone, liguei para o senhor Gildo Russowski e para outras pessoas. Eu digo: ‘eu acho gozado isso aí de vocês. Eu não quero enfrentar o Inter, em primeiro lugar porque a palavra foi dada; em segundo lugar porque a minha parte emocional não vai fazer com que eu fique muito bem dentro do campo, não que eu não tenha coragem, porque daqui a pouco vão dizer que o Bráulio não quis; e em terceiro lugar porque enfrentar uma torcida de 40, 50 mil pessoas lotando o Beira-Rio, gritando o meu nome, e eu tendo que fazer gol, fazer jogadas contra o meu time. Mas só que eu acho uma baixeza de vocês, me mandaram embora do Inter dizendo que eu não tinha condições de jogar no time, por que vocês têm medo que eu jogue contra? Se eu não valho o que os outros dizem, se vocês não acreditam, porque vocês não deixam eu jogar? Vocês foram tão cachorros para me mandar embora e agora não querem que eu jogue?’ Aí ele (Gildo Russowski) diz assim: ‘Ele vai jogar’. Joguei. Perdemos de 1×0, com nove homens. Todos os prêmios do dia de melhor jogador em campo eu ganhei. Mas, felizmente, o Internacional ganhou. Se perdesse com um gol meu, acho que nunca mais seria esse ídolo que até hoje eu sou.

RE: Nessa época a torcida ficou do teu lado?

Bráulio: Quando eu entrei no estádio foi uma coisa de louco. Quando eu saí no primeiro tempo eu errei, sai conversando com o Carbone e ia indo para o túnel do Inter. Aí o Carbone e o Escurinho disseram: ‘Poh garoto, tu tá indo pro túnel errado’. Nos dez, quinze primeiros minutos parecia que o mundo flutuava na minha frente. Pegava na bola e todo mundo vibrava. Me trataram com um carinho imenso, depois do jogo também. Mas foi bom ter jogado, pelo profissionalismo. Claro que se eu metesse um gol, eu não ia festejar. Tinha respeito, como tenho até hoje. Eu tive proposta para vir para o Grêmio, 73, 74, disse que não, porque eu não me via com a camiseta do Grêmio. Eu disse, eu respeito o Grêmio, admiro, acho espetacular. Porque eu queria encerrar a carreira como ídolo do Internacional. Com certeza absoluta eu não teria tesão nenhum para isso. Já pensou entrar com uma camiseta do Grêmio, num Gre-Nal….é demais, eu não consigo, não tenho duas caras. Não é ter duas caras, daqui a pouco eu posso ofender quem jogou nas duas equipes e não é minha intenção, não é por causa disso. Pode ser que hoje, da maneira como está a realidade financeira, se tu tivesse financeira, eu teria que pensar, mulher, filhos pequenos. Mas eu acho muito difícil.

RE: Aproveitando esse gancho: amor à camiseta, existia mais antes, é uma lenda, era questão de falta de oportunidade, por que o futebol envolvia menos dinheiro, é romantismo ou realmente era diferente?

Bráulio: Existia. Se eu te perguntar aqui, tu não vai saber me responder qual é o jogador que está em um time do Brasil mais de cinco anos?

RE: Só goleiros, Rogério Ceni, Clemer desde 2002…

Bráulio: Imagina. Mas tu queres ver uma coisa, nós ficamos dez anos em um clube. Poh, o Larry saiu do Fluminense e foi para o Internacional, muitos jogadores tiveram oportunidades de trocar de time, Carpegiani, Carbone, Claudiomiro, Airton Ferreira da Silva e tantos outros. Tinha possibilidade sim, e tinha convites, mas nós ficávamos. Eu vi na televisão fazerem uma homenagem merecida ao Clemer que estava jogando 300 partidas pelo Internacional. Sabe quantas partidas eu joguei no Internacional? Mais ou menos 400 partidas, estou entre os cinco que mais jogaram. Tinha amor à camiseta sim. Vamos pegar o lado do Internacional, o Bibiano Pontes, Sadi Schwertz, Tovar Machado, Oldorelino Nunes Leal (Dorinho), Bráulio Barbosa de Lima, Valdomiro Vaz Franco, Claudiomiro Ferreira, Sérgio “Galocha” Ferreira, e assim por diante. Pergunta para todos esses que eu citei se são colorados? Nós somos colorados mesmo, de torcer. Paulo César Carpegiani, Paulo Roberto Falcão, mesmo sendo comentarista e tendo que ficar em cima do muro. Carpegiani chorou quando o Inter escapou de cair para a segunda divisão no jogo contra o Paysandu (em 2002). Agora quando o Inter foi campeão da América e do mundo, eu botei a camiseta e fui para a rua. Chorei quando entrei numa churrascaria e as pessoas me aclamaram. Agora eu pergunto, isso aí não é amor à camiseta? Claro que é. As nossas raízes são de lá, o que acontece é que dificilmente essas raízes são criadas. Quando o cara quer ter uma raiz, como o Pato, é cortado o caule, fica só a raiz muito fina, muito sem base, sem vigor. A nossa não, era raiz, que deu um caule, o caule os ramos, os frutos. Quer dizer, tinha sim. Nós somos colorados, sofremos quando perde e ficamos felizes quando ganha.

RE: E como é que foi para ti ver o Inter ganhar os brasileiros na década de 70 e tu poder estar lá?

Bráulio: Foi terrível. 75 e 76, eu podia estar lá. Se essa turma não tivesse me atrapalhado eu estaria lá e teria jogado. Mas eu estava torcendo pelo Inter. Porque Inter é um baita de um clube. Nós vamos embora, eles continuam. Vão vir outros Braúlios, outros Leonardos (meu filho), outros Benjamins e outros Eduardos (que são meus netos) para gostar e amar o Inter, por que ele continua, não tem culpa nenhuma dos caras terem me tirado do clube. Então porque eu vou torcer contra? Não tenho mágoa nenhuma com o clube, nem com as pessoas. Eu estou muito feliz, graças a Deus.

RE: Bráulio, seleção brasileira. Você chegou a ser convocado?

Bráulio: Em 77, eu tava em uma das melhoras fases da minha vida, saí do América e fui para o Botafogo, eu estava na frente do Bola de Prata (premiação da revista Placar), o Cláudio Coutinho queria me levar para o Flamengo e aí me convocou. Eu estava em uma excursão na Espanha, o Valência queria me dar 600 mil dólares. E aí, se eu não me engano o Cel. Heleno (o almirante Heleno Nunes, presidente da CBF) baixou um decreto dizendo que os jogadores convocados para a seleção não podiam ser vendidos naquele ano. E eu tava entre os 40 pré-convocados (para a Copa de 78) e fiquei, mas fui cortado. A maior oportunidade que eu tive foi essa, era conhecido no Rio de Janeiro. O Coutinho até deu uma explicação no jornal, até tenho os recortes e meu filho quando vê fica louco, que dos cortados, Falcão, Sócrates, etc, eu seria o mais provável de ser convocado. Mas só que tinha o Jorge Mendonça (jogador do Palmeiras) que fazia outra coisa que ele gostava, sabia marcar. Bah, o Jorge não sabia marcar nem…..mas tudo bem, passou.

RE: Se você pudesse voltar no tempo teria se dedicado mais à marcação?

Bráulio: Não. Tanto que eu tive sucesso nos times que eu fui jogando do jeito que eu era. Imagina, tu pegar um Zico, um Rivelino, um Gérson, um Ademir da Guia, e fazer eles aprenderem a marcar. As características desses jogadores eram de construir, fazer com que o talento deles fosse para a equipe. No Internacional tinha Carbone e Tovar que marcavam, por que três volantes e o Bráulio ter que marcar? Eu dava aquela de mané, que nem o Carpegiani, que foi um extraordinário jogador de bola, mas não era um marcador. Então, o que acontecia com ele e comigo, é que nosso talento era admirável e os fundamentos que nós tínhamos como dominar bem, passar bem, cabecear, todos fundamentos nota 9, 10, então por que nós tínhamos que ter a marcação? Se eu jogasse hoje, não seria um jogador de marcação. Faria a posição do Kaká, do Ronaldinho Gaúcho, poderia me educar, conforme fosse o esquema, a fazer a marcação, mas não seria nunca um marcador.

RE: Bráulio, e a sua passagem pelo Chile, você saiu em momento que estava bem, foi por questões que envolviam a ditadura daquele país?

Bráulio: Foi. A política lá me atordoou um pouco.

RE: Como você foi para lá?

Bráulio: Eu tava em 79 no Coritiba, com o Ênio Andrade e o Gilberto Tim, e ai o Elias Figueroa, que tava no Palestino, me telefonou e disse: ‘garoto, o Universidad do Chile ta precisando de um ocho, jogador que joga assim como tu, meia-direita. Não querer vir aqui?’. Aí eu disse: ‘Tu sempre me falaste que o Chile era um lugar muito bonito e tal’. Daí eu fui. Me mandaram duas passagens, para mim e para minha mulher, ida e volta. Fomos lá, conhecemos Santiago. Estava lá o Figueroa me esperando. Cheguei lá e fui fazer um jogo contra o Audax Italiano. O treinador chamou o Elias, que veio e me disse: ‘ô garoto, quer jogar aí, nesse match-treino aí?’. Eu não tinha nem chuteira, nem nada, não tinha ido para fazer teste. Daí me arrumaram uma chuteira 39. Botei o fardamento e entrei. Ganhamos de 4×2 e fiz dois gols de falta. Daí os caras lá me disseram, ‘fica aqui’. Eu digo: ‘fico’. Voltei para o Brasil, peguei minhas coisas e fui para o Chile. Extraordinário clube, pagava em dia, pessoal correto, nível dos jogadores extraordinários. Mas eu me sentia mal por vários motivos. Eu tinha que ver Dona Flor e seus dois maridos às 3 horas da tarde, para às 5 horas estar em casa. Vê-se um filme daqueles, com cortes, tu vai sentar às cinco da tarde. Dona Flor é filme para ver às 11 e meia. Então tu ia numa boate dançar, tudo escurinho, tu saía e eram seis horas da tarde com sol. Tinha o toque de recolher. Restaurante de noite eu só fui depois que começaram acabar com o toque de recolher. Então foram certas coisas que aconteceram, doença da minha filha, eu tive que chamar os carabenieri (policiais) para levá-la até o hospital, porque não podia sair na rua e pegar o risco, sob o risco de ser preso. Eles iam dirigindo, o doutor do lado, e minha mulher com a menina com 40º de febre. Eu disse, sabe de uma coisa, eu estou com 32 para 33 anos, eu vou tirar o meu time de campo. Já tinha passado o Natal e o ano-novo lá. Eu perdi férias. Eu voltei para cá e já estava sem vontade, já não estava afim. Era contra os meus princípios ter que votar Sim ou Não. Sim para o Pinochet sair; não para ele continuar. E eu não podendo abrir a boca para dar o meu palpite, dizer: ‘mas vocês vão querer esse cara ainda?’. Se eu dissesse era preso. Aí eu disse: ‘vou voltar para o meu Brasil, não quero mais’. Eu resolvi parar de jogar futebol.

RE: Como era jogar no Estádio Nacional, em Santiago, onde tantas pessoas foram fuziladas?

Bráulio: Era um terror. Primeiro jogo meu lá teve duas coisas horrorosas. A primeira: nós saímos da nossa concentração, eu entrei no carro do Alberto Quintana, que era nosso zagueiro, companheiro de zaga na seleção chilena do Figueroa, e junto conosco o Toro Arangues, volante, forte. Chegamos lá, descemos do carro. Eu to conversando com eles, e eu senti que ele, que era muito engraçado, numa distância de quatro a cinco metros começou a se transformar, ficar mudo. Quando nós chegamos nas roletas, estancou (o Toro), não passou, começou a branquear, a passar mal. Aí carregamos ele de lado, demos água, colocamos no carro. Não teve jeito, ele não jogou o jogo. Aí eu fui saber o porquê de não ter jogado o jogo, porque antes dele ir para os EUA, ele tinha ido naquele estádio, nos vestiários, onde aconteceram às barbáries, procurar o irmão dele, que era um dos caras que tinha sido fuzilado. O cara não conseguiu entrar no estádio. Aí eu entrei, os caras me contando aquela história, que eu já sabia porque eu não sou mané. Aprendi com o Záchia que a gente tem que ler desde o Tio Patinhas até o Shakespeare, para andar bem na vida. Daí eu to sentando olhando, lembrando dos livros que eu li. ‘Aqui aconteceu isso. Tá tudo aqui’. Caminhando, bem curioso para saber. O massagista perguntou se eu queria massagem, insistiu. Daí eu deitei, fechei os olhos, fazer a minha oração, porque era o primeiro jogo que eu ia enfrentar ali. Universidad Católica contra Universidad do Chile, o clássico. Daqui um pouco eu comecei a sentir uns troços na cama. ‘Poh, os caras tão me sacaneando’. Olhei para o vestiário, não tinha ninguém. Foi um tremor que tinha acontecido, questão de 3 a 4 segundos. Os caras tudo embaixo das mesas de massagens. Eu disse: ‘só me faltava essa, dentro desse estádio e ainda tem um temor? Não é para mim. ’ Mas foi muito maravilhoso, só que realmente pesou na minha cabeça, na família, era um problema. Minha mãe foi no aeroporto me levar feijão preto, não deixaram passar. ‘Quer dizer que eu vou ficar um ano sem comer feijão?’, eu dizia para os guardas. Daí eu fui ficando muito conhecido, simpático com todos, dei a camiseta da seleção brasileira para eles e deixavam passar. Mas não é por causa do feijão que eu não ia ficar, o cara tem que se educar em qualquer situação da vida. O problema foi a parte política que para mim foi uma droga. Eu era completamente contra, e sou até hoje, contra um regime ditatorial, ainda mais feito daquela maneira.

RE: No Brasil a ditadura nunca interferiu em nada, no teu futebol?

Bráulio: Não, não. O presidente Médici, era um grande gremista, ia aos jogos com radinho. Nunca teve problema aqui. Lá a coisa era braba. Eu era super conhecido, famoso, daqui um pouco seqüestram meu filho pequeno? Eu não. Tirei o meu time de campo.

RE: E então você parou?

Bráulio: Parei, não quis mais. Tive convite do Vitória da Bahia, do próprio Coritiba, do Cruzeiro de Minas, que sempre quis que eu fosse para lá, sempre jogava bem contra o Cruzeiro. Me arrependi de nunca ter jogado lá. Mas eu digo: ‘sabe de uma coisa? Estou com 33 anos, estou ficando grisalho’. Tu vê, até isso o Chile fez. Voltei com o cabelo branco. O pessoal perguntava, fazia um ano que eu não os via. Eu respondia: “Foi a neve que fez ficar assim”. Foi preocupação mesmo. Eu já tava deixando de gostar de jogar futebol.

Comentários»

1. Emilio Pacheco - 30 outubro, 2009

Belo relato, parabéns e obrigado. O Bráulio deveria escrever um livro. É só pegar um bom jornalista pra ajudá-lo, de preferência da área de esportes, e sai uma excelente autobiografia.

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