Na casa do inimigo
Mariana Costa (mariana.bcosta@yahoo.com.br)
Surpreendente. Assim defini minha ida ao Gre-Nal na torcida colorada. A função daquele domingo começou cedo, como em todos os jogos, churrasco e cantoria desde antes do meio-dia.
A escolta foi pontual, 14:00/14:30 já estávamos todos saindo do Beira-Rio em direção ao Olímpico. Caminhada ansiosa, animada. Um homem de camiseta do Grêmio apareceu na sua sacada, provocativo, e foi xingado pela massa vermelha e branca. Por onde a escolta passava, havia gente abanando. O futebol do Sul move paixões, senti-me uma guerreira indo para o campo de batalha.
Na frente do Motel Botafogo, a surpresa: PAREDÃO. Homens para direita, mulheres para esquerda. Os policiais foram mal-educados, rudes e, por muito pouco, não os acusaria de abuso. Eles também estavam com os ânimos exaltados.
Saindo da Botafogo, Azenha. Daí o bicho pegou, sabe-se lá por que, a brigada desceu o pau nos torcedores que estavam na última fileira. Subimos a Florianópolis, pegamos uma ruazinha e chegamos ao Olímpico. Já estava na hora.
Mesmo depois de 1h de caminhada, ficamos trancados na rua, ou entrávamos, ou ficávamos com sede. Entramos antes que desse algum confronto PM x Torcedor-querendo-comprar-ceva.
Depois de entrar no Estádio era só alegria. O banheiro masculino estava quebrado, não sei se quebraram por querer. Quem, em sã consciência, quebraria um banheiro em uso? Bom, o fato é que do banheiro masculino corria água, que desceu pela arquibancada e estimulou alguns a brincarem de pisar nas poças.
Antes de o jogo começar, torcida colorada cantava todas as músicas em uma só voz, era só alegria. Passou o tempo, começou o jogo. Nem tinha terminado o segundo tempo e estávamos sem copa.
Fim de jogo, a indignação era visível. Além de perder, deveríamos esperar os torcedores do Grêmio esvaziarem o Estádio antes de sairmos. Porém, alguns integrantes da Geral do Grêmio sentaram na arquibancada, e lá ficaram, mesmo na chuva, apenas para nos fazer esperar mais.
Na arquibancada do Internacional, nem todos haviam perdido o bom-humor. Alguns cantavam funk enquanto outros dançavam, tudo em paz. Daí a choque entrou, achei que fossem quebrar tudo. Um alto e claro “puta que pariu, essa PM é a vergonha do Brasil” ecoou no Olímpico já vazio.
Uma vez liberados, voltamos com a escolta. Subimos mais lomba, aliás, nunca tinha visto disso: lomba pra ir e lomba pra voltar, só podiam estar de brincadeira! Alguns torcedores da Popular riam (pra não chorar, eu acho), “A Popular também é saúde!”.
A Brigada era cretina. Jogavam os cavalos e as motos por cima de nós sem escrúpulo algum. Chegando à Silvério com a José de Alencar, a surpresa: voltaríamos pela Silvério. “Mas o quê que custa nos levar pela José de Alencar?”, dizia um torcedor indignado. O resultado era óbvio, furaram a escolta.
No novo trajeto um bar repleto de gremistas fora depredado. Um brigadiano ria, “liga pro 190”. Quando eu ri, ele me xingou. Bem macho de farda e arminha na mão.
De resto, tranqüilo. Terminei minha noite surpresa, meus principais inimigos não foram os gremistas, ou algum arruaceiro colorado. Meu medo era da Brigada Militar.
[...] Por fim, as colunas de nossa equipe. Espaço, que será ocupado por textos variados, sem nenhuma restrição de forma ou conteúdo. Dessa vez, Felipe fala sobre o radinho; Luís Eduardo conta sua relação com seu primeiro ídolo, Nelson Rodrigues e o futebol do passado; e Mariana fala sobre seu primeiro Gre-Nal na torcida visitante. [...]