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Atletas do Passado – Bráulio

Final de tarde de segunda-feira (13.8). Eram quase seis horas da tarde quando Bráulio, o Garoto de Ouro do Internacional dos anos 60, recebe os repórteres do Repórter Esportivo Luís Eduardo Gomes e Felipe Prestes para uma conversa que duraria quase uma hora. O craque colorado falaria sobre seu início de carreira, Abílio dos Reis, a polêmica com os Mandarins e até sobre sua passagem no futebol chileno sob a ditadura de Pinochet – um marco decisivo para o término de sua carreira.

RE: Como surgiu o termo garoto de ouro?

Bráulio: Garoto de ouro? Em 1966, no jogo Cruzeiro de Minas e Internacional nos Eucaliptos. O Cruzeiro de Minas tinha um timaço naquela época: Tostão, Dirceu Lopes, Raúl, o goleiro, e era o papa-tudo. Na época as duas grandes equipes eram Palmeiras e Santos. Santos por causa do nego, não é? Do Pelé. O negrão era fogo. O time do Santos era uma maravilha. O Botafogo, também nessa época, com o Mané, que não sei se ainda tava jogando ou se o Mané já tava em decadência. Mas tinha um grande time. E o Cruzeiro vinha começando a aprontar, vinha começando a aparecer no âmbito nacional. Porque foi feito o Mineirão, o futebol mineiro subiu muito, e começou a aparecer uma gurizada do Cruzeiro de Minas que era: o goleiro Raúl, Dirceu Lopes, Zé Carlos, Piazza, Tostão, Natal, Evaldo, uma máquina. Aí vieram aqui jogar, na época não tinha campeonato brasileiro, era Taça do Brasil. Vieram jogar contra o Grêmio aqui e o Internacional convidou-os para fazer uma partida amistosa numa terça-feira ou quarta à noite. E aí eu fui guindado para a equipe principal, nós ganhamos de 3×1 e eu fiz um belíssimo de um gol. Dizem que foi um dos gols mais bonitos que o Rio Grande do Sul já viu, pelo menos dentro dos Eucaliptos parece que foi mesmo. E aí o Jorge Alberto Mendes Ribeiro, jornalista, advogado, político, já falecido, ele era narrador na época. Eu não me recordo se era da Guaíba ou da Gaúcha, era uma das duas. E aí quando eu fiz esse gol ele me colocou esse apelido: garoto de ouro. Porque eu tinha 16 anos. E aí ficou garoto de ouro, até hoje.

RE: Sobre esse processo de subir para os profissionais. Naquela época havia as preliminares. Dizem que havia times de juniores que os torcedores iam mais para ver os juniores do que o próprio time, especialmente o Inter dos anos 60…

Bráulio: O meu time foi considerado imbatível por todos, o de 64. Porque na época era o juvenil, na idade que correspondia hoje aos juniores. E existiam os aspirantes, que eram os reservas que disputavam o campeonato de aspirantes. Então, esse meu time de 64 realmente foi considerado um dos times mais perfeitos e mais completos dentro do esquema juvenil. Era um time promissor, jogadores extraordinários mesmo. Nós jogamos, se eu não me engano, 72 partidas e acho que não chegamos a empatar nenhuma, acho que ganhamos todas. Nós fazíamos muito a preliminar, era quase exigido pelo público, de cartas que iam para o Beira-Rio, a própria crônica, o próprio Mendes Ribeiro, Samuel Madureira Carneiro – já falecido também, Pedro Carneiro Pereira. Esse pessoal quase que exigia, faziam um combate em favor das preliminares. E aí começou a ter preliminares e sempre era exigido que fosse conosco. O próprio campeonato gaúcho ajudava muito. Porque na época era assim: Inter e Floriano – na época era Floriano, não era Novo Hamburgo -, e aí a preliminar era Inter e Floriano. Grêmio e São José, Grêmio e São José. Então no nosso caso nós fizemos todas as preliminares quando os profissionais jogavam. E é por isso que nós ficamos muito conhecidos.

RE: Quem jogava contigo nesse time?

Bráulio: O time era: o goleiro era o Cavalero, Zangão Batista, Pontes, e Enísio; eu e o Chorinho; Carlos Castro, Manoel – que era o irmão do Larry, grande Larry Pinto de Faria -, e o Laoni (nota do editor: Bráulio citou apenas dez jogadores). Era um time maravilhoso. Tu vê, eu digo a escalação e poucos reservas eu me lembro daquela época. O Abílio tinha essa maneira de tratar futebol. Ele tinha um time e nós sabíamos quem era, do princípio ao fim. Todo mundo conhecia aquele time, era uma escalação quase que certa. Dificilmente aconteciam algumas modificações, por isso que ficou muito conhecido.

RE: E aproveitando esse gancho. Qual foi a sua relação com o Abílio dos Reis e qual a importância que ele teve na sua carreira?

Bráulio: Grande. A relação como profissional foi importantíssima, porque ele era um homem que conhecia muito futebol, ele tinha os olhos clínicos para conhecer futebol, para falar sobre futebol. O Abílio tinha essa facilidade. Era uma pessoa muito simples, veio do futebol de várzea, e observava, adorava futebol. Ele não era um grande estrategista, mas saber quem jogava futebol ele sabia. Eu o acompanhei em várias peneiras, por que eu já fui treinador do infanto-juvenil, juvenil, juniores do Internacional e ele me acompanhou em algumas também. Tu podias fazer uma peneira com seiscentos meninos, se ele apontasse o dedo e dissesse: ‘aquele lá joga bola’, tu podias tirar da peneira que o cara jogava bola mesmo. Ele agrupava muito os jogadores, com aquela maneira simples de ver futebol, de tratar futebol, não tinha muita frescura com ele. Era assim: futebol tem que jogar num esquema tal, procurava fazer uma linha de quatro, meio de campo trivial. Mas ele procurava botar os jogadores na posição que era a certa. Eu acho que se ele fosse treinador hoje, ele se sentiria um peixe fora d’água, porque ele não teria ponteiros. Eu não consigo imaginar um time dele sem ponteiros ou sem centroavante. Para ele era assim, ponteiro era ponteiro, centroavante era centroavante, lateral era lateral, com raríssimas mudanças táticas. Era um cara extraordinário, como ser humano inacreditável. Boníssimo coração.

RE: Como tu achas que ele veria essa questão atual de a preparação física e a tática predominarem sobre a técnica já nas categorias de base?

Bráulio: Também não veria com bons olhos. Eu o acompanhei quando já estava tendo uma mudança radical. Eu me bicava muito com o preparador do júnior do Internacional por que dos cinco dias que nós tínhamos para treinar por semana ele já utilizava três para a preparação física, restando apenas dois para a preparação técnica e tática. Isso foi muito prejudicial ao futebol e o Abílio se queixava muito com isso, mas ele já colocava no plantel dele perante a diretoria alguém que fosse mais maleável, não fosse alguém que achasse que o preparo físico tinha que ser o máximo. E nós estamos vendo o futebol como está o nosso, porque crianças de doze, treze anos até os dezesseis, senão aprender os fundamentos, depois disso aí fica muito difícil. E tu não pode jogar futebol sem saber driblar, passar, dominar a bola, chutar, cabecear. Eu e o Abílio debatíamos que o passe é a coisa mais importante do futebol. Como é que inicia uma partida de futebol? Com um passe. Não é com um chute pra frente, nem o cara pegar uma bola sair driblando. Então hoje tu vê Flamengo e Palmeiras (Camp. Brasileiro 2007), Juventude e Corintihans – que eu vejo todos os jogos -, erros de quarenta a cinqüenta passes por equipe e eu estou sendo muito bondoso. Tu não vê mais uma equipe trocar quatro, cinco passes com a bola, é muito difícil. Uma das poucas equipes que faz isso hoje é o Botafogo. É um time que já sai desde trás tocando a bola, tem jogadores habilidosos que procuram jogar futebol. É uma equipe gostosa de se ver jogar. Só não está melhor porque é o Botafogo, e tudo acontece com o Botafogo. Erros humanos, erros de arbitragem, tudo acontece com o Botafogo. O Abílio saiu dessa vida, já velhinho, sempre dizendo para mim que a valorização demasiada das condições físicas acabou com a beleza do futebol. Ele era contra isso.

RE: Voltando ao início da sua carreira como jogador de futebol, nos anos 60. Por que o Internacional não conseguia ganhar Gauchões naquela época?

Bráulio: No meu modo de entender há dois motivos – pelo menos na época que eu peguei (a partir de 1966): o Internacional não investia em comprar jogadores, não se preocupava em fazer uma grande equipe, porque investia nas categorias inferiores e estava com os olhos voltados para a construção do Beira-Rio. Os custos do Beira-Rio tiravam todas as economias do Internacional. Então eles tinham que jogar com pratas da casa, com jogadores baratos do interior. Se tu pegar a formação do time de 66, tu vais ver que o goleiro era do Floriano (antigo nome do EC Novo Hamburgo), o lateral direito era do Floriano, outro do Rio Grande, o quarto-zagueiro – que era o Lua – vinha do Metropol de Santa Catarina, que hoje não existe mais, o Sadi era prata da casa e assim por diante. Eu, prata da casa, o Dório, prata da casa, o Carlos Castro, prata da casa, o Darlan, prata da casa. Daqui um pouco vinha um centroavante do interior também. E o Grêmio vinha com uma equipe que jogava junto há cinco, seis anos. Quando nós entramos pra dentro do Beira-Rio, nós já estávamos formados, mesmo garotos, já tínhamos três, quatro anos como profissionais. Daí formou-se aquela máquina que ganhou tudo por oito anos. Em 69, 70, 71, o Internacional não pôde investir em ninguém. Só que aqueles da base, além de jogarem muito, já estavam maduros. Aí nós liquidamos com o Grêmio. Aí depois podíamos trazer o Seu Elias Figueroa, o Seu Marinho Peres, Seu Manga, Seu Lula e assim por diante.

RE: Como explicar o melhor desempenho do Internacional, em relação ao Grêmio, em competições nacionais no fim dos anos 60?

Bráulio: Nossa equipe era tudo uma gurizada. Em 67, o Sérgio Moacir Torres trouxe o Élton, que era o único jogador experiente da equipe. A linha era chamada, linha iê-iê-iê, por causa dos Beatles. Era formada por Carlos Castro, Eu, Sérgio Galocha, Claudiomiro, Dorinho. Tudo garoto de dezenove, vinte anos. Mas nós jogávamos muito bem. E em 67 nós já jogávamos juntos há quase dois anos. Tanto que, em 67, nós jogamos dois grenais no Campeonato Gaúcho, e se não me engano, ganhamos os dois: dois a um e um a zero. E fomos pro Roberto Gomes Pedrosa – que era um Brasileiro em miniatura – e ganhamos de dois a zero do Grêmio. E nós íamos jogar com as outras equipes e ninguém tava nem aí pra nós. E nós papando todo o mundo. E nós tínhamos sim condições de ganhar em 67 e 68. Foram erros humanos que fizeram com que a gente perdesse os campeonatos. Em 68 nós mantivemos o time de gurizada e o Grêmio começou a decair. O grande Aírton Ferreira da Silva já não jogava mais no Grêmio, o Ortunho também e assim por diante. E, cá pra nós, ser vice-campeão de um campeonato brasileiro, e ficar na frente de um Santos, de um Botafogo, de um Palmeiras.

RE: Como é que foi a polêmica com os mandarins, quando tu ficaste marcado como um símbolo de um futebol de pouca força física, enquanto Sérgio Galocha seria um símbolo de um novo futebol que estes preconizavam?

Bráulio: Eu já era profissional e já era Craque do Ano por dois anos consecutivos. Essa mudança não houve no Internacional. A idéia dos mandarins era política. Esquerdistas e políticos. Então eles estavam usando o clube para a política – tanto que tem gente que hoje é vereador, deputado e outros rolos mais. Em primeiro lugar, o Sérgio e o Bráulio não podiam disputar lugar nunca, porque nós jogávamos juntos na linha iê-iê-iê. E nós fomos duas vezes vice-campeões sendo garotos de dezenove anos. Então não podia ser uma equipe perdedora. Então nós colocaríamos o grande Grêmio, que foi heptacampeão, de perdedor, porque ficou atrás de nós nos dois campeonatos, de uma gurizada. O Bráulio era um articulador, um jogador que vinha de trás. Hoje eu seria um segundo volante avançado. Eu era um jogador de largar os caras na cara do gol, tanto que comecei a minha carreira de volante. E o Sérgio era um ponta-de-lança, tinha o estilo de um Grafite, um Somália, hoje em dia. Baita duma pinta o negrão, parecia o Sidney Poitier. E um baita jogador. Mas eles (os mandarins) queriam três volantes, queriam convencer o Daltro Menezes a me tirar do time para botar Carbone, Tovar, que eram excelentes jogadores, mas diferentes. Eu era o ídolo do time e na visão política deles não podia existir ídolo, tinham que ser todos iguais. Eles trazem por ambição, orgulho, vaidade e egoísmo e se deixam carregar isso aí, que os grandes vencedores dos anos de 69 e 70 foram os mandarins, e não os jogadores dentro do campo. Esquecem que lá tinha o Sadi, o Bráulio, o Claudiomiro, o Valdomiro, e que eles saindo nós continuamos sendo campeões. Jogadores que não foram nem trazidos por eles e nem feitos por eles. Já estavam dentro do Beira-Rio, se formando para ganhar os campeonatos. Qualquer treinador que tivesse lá, com uma direção – excluindo os mandarins -, nós teríamos sido campeões e teríamos feito o octacampeonato. Eles não contrataram ninguém. Era o mesmo time de 67, 68. Gaina (Gainete) no gol, Laurício, depois veio o Édson Madureira – que quem contratou foi o Osvaldo Rolla em 68 – Pontes, grande Pontes, começou no juvenil, Scala – que estava desde 66 no Internacional – será que ele não prestava em 66 ou foi o dedo mágico desses caras?… O Sadi, o Jorge Andrade, que veio em 67 do Flamengo de Caxias, o seu Bráulio, o seu Tovar, que veio dos juniores, o Carbone, que veio em 68 do Metropol, o Valdomiro, que veio em 68, o Claudiomiro e o Galocha, que vieram desde 66, 67, comendo o pão que o diabo amassou comigo, o Dorinho. Quem é que eles trouxeram? Como é que o time desses guris foi bi-vice-campeão brasileiro jogando contra aquelas feras todas? O presidente Carlos Stechman já sabia, todos nós sabíamos, que estava no ponto, que era a hora de entrarmos no Beira-Rio e tomar conta do Rio Grande do Sul. Nós estávamos nos preparando, então eles se aproveitaram da situação. Eles ficaram pouco tempo.

RE: Ficaram dois anos…

Bráulio: Que doutrina que eles fizeram?

RE: Houve uma partida entre o Inter e o Santos, de Pelé, no Pacaembu, que ficou marcada como a partida que culminou com a saída dos mandarins e a manutenção do presidente Carlos Stechman.

Bráulio: Hoje eu já estou com 59 pra 60 anos, já estou com cabelos brancos, com netos, sossegado, realizado, principalmente porque eu fiz tudo o que eu queria na minha profissão. Escolhi um time pra jogar, que era o time do meu coração. Joguei por dez anos, ganhei sete títulos, a minha profissão foi feita só de vitórias. Em 73, fui pro Coritiba e fui campeão (paranaense). Em 74, fui pro América, fazia doze anos que não ganhava títulos, fui campeão. Joguei no Botafogo por um ano e meio, ficamos 53 jogos invictos. Voltei pro Coritiba e fui campeão. Fui pro Chile e fui campeão. Vê se não é ridículo o cara ser um jogador profissional que se dedica e tem uma turma que entra e…Porque o Flamengo chegou pro Carlos Stechman e disse: ‘nós te damos o Doval mais cem mil pelo Bráulio’. Não quiseram. E eu queria ir. Mentira quem diz em livros que eu não queria. Até vi pessoas com muita credibilidade falarem isso. Fizeram um livro e nem falaram comigo.

RE: Que ano isto?

Bráulio: Em 70. Então é ridículo que consigam fazer com que haja braulistas e não-braulistas, isso não pode acontecer no futebol. A verdade é que quando eles disseram pro Stechman e disseram que eu tinha que sair, o Stechman disse que não. Então saíram eles. (Quando saíram do Internacional) Ivo Corrêa Pires, Cláudio Cabral, Ibsen Pinheiro tinham retaguarda da imprensa. Um foi pra Folha da Manhã, outro pra Folha da Tarde e outro pra Zero Hora. E outro até hoje tentando ser comentarista esportivo…

RE: Hugo Amorim?

Bráulio: Não, o Hugo Amorim era diferenciado desse pessoal. Então eles começaram a me criticar de uma maneira tal…Um banditismo, uma safadeza. Porque eles tinham ainda por trás disso aí, gente da crônica, que defendia o futebol-força. Na Folha da Manhã tinha o Lauro Quadros, que defendia o Ivo Corrêa Pires e falava mal de mim todo o dia. Na Folha da Tarde tinha um cara que me defendia no futebol, Cid Pinheiro Cabral. Porque que ele começou a falar contra mim diariamente? Porque o filho dele, Cláudio Cabral, foi posto pra rua por minha causa. Agora eu pergunto: por que por minha causa? Que direito tenho eu de mandar diretor embora? Então ficaram com uma raiva de mim, e eu tendo sucesso. Aí veio esse jogo. Vovô Bráulio, que me criou, havia falecido na véspera. Perguntaram-me se eu queria ir pro jogo, eu disse: ‘claro que vou’. Pergunta se alguém deles estava perguntando por mim, dando condolências, qualquer coisa assim? Nada, estavam todos torcendo contra mim, até os próprios ex-diretores do Internacional. Aí fui pro jogo e cheguei pro Elias (Figueroa): ‘como usted tá, gringo?’ – era a segunda partida dele no Inter – nós ficamos amigos, ele se grudou em mim em Porto Alegre. Somos amigos até hoje. Aí ele chegou pra mim: ‘yo sé la importância de la peleja para ti’. Ele já sabia o que estava acontecendo, tinha se informado, e sabia que eu era talentoso. Ele era um cara sensível, inteligente, por isso é que era um craque. Então ele falou bem assim: ‘faz lá na frente que o negrão (Pelé) aqui não joga’. E ele triturou o negão. Foi pra linha de fundo e deu um drible no Pelé e saiu jogando. Aí eu pensei: ‘agora é comigo’. E teve esse lance que eu deixei dois de bunda no chão e fiz um golaço. Me disseram que o Stechman estava perdendo as eleições até ali, e aí foi que virou o troço e o Stechman venceu as eleições para o bem do Internacional. Então os caras passaram a me odiar. Aí é que vieram com tudo pra cima de mim. Mas saiu o Daltro e entrou o Dino Sani. E o Dino atirou uma camisa pra mim e disse: ‘Comigo tu vai ser sempre titular’. Será que os mandarins conheciam e o Dino não? E nós fomos campeões em 71. Em 70, eu fiz o gol do bicampeonato, será que os mandarins esqueceram? Em 72, fomos campeões também e eu joguei todas as partidas. Em 73, eu estava desgastado e queria ir embora, porque eu sabia que o grande Stechman iria sair.

RE: Ainda assim, em 72 o Inter quase foi campeão brasileiro…

Bráulio: Mas já existia Arnaldo Cezar Coelho naquela época. Hoje está cheio de Arnaldo aí, e ele está na televisão comentando, com a maior autoridade. Aí tu vai ver o Bem Amigos, e ele está ali dando as maiores dicas do troço. Deve ser um palmeirense roxo, porque nos tirou o campeonato. Nós ganhávamos de um a zero – eu passei pro Tovar e ele fez o gol – e o Palmeiras fez um gol em impedimento clamoroso. O Ademir da Guia entrou sozinho, chutou na trave, a bola sobrou pro Nei – os dois escandalosamente impedidos. Com o empate nós perdemos a classificação. Nós ganharíamos o campeonato, porque iríamos jogar com o Botafogo a primeira lá e a segunda no Beira. Seríamos campeões brasileiros. Aí o papa deles, ele sabe tudo, até final de Copa do Mundo apitou, meteu a mão clamorosamente em nós. Eu já disse isso para ele. Eu já me encontrei umas dez vezes com o Arnaldo. E eu disse, Arnaldo tu se lembra daquele jogo? ‘Bah, como é que eu errei?’ Mas tu te lembra de uma coisa dessas? Se tu perguntar para mim se eu errei um gol no Gre-Nal, eu não me lembro. Mas se eu tivesse errado um gol que tivesse feito o Internacional perder o campeonato, eu iria me lembrar. Quer dizer, se ele se lembra desse lance, é um lance que chamou muito a atenção. E ali o Internacional (ia ser campeão), com esse time que não foi feito pelos mandarins, não senhor.

RE: Como foi sua saída do Internacional?

Bráulio: Em 73, eu já quis sair do Internacional. Eu casei em 71, minha esposa era uma menina e eu era um cara muito famoso. Era difícil sair na rua. Eu saía nas páginas dos jornais todos os dias. ‘Bráulio joga, Bráulio não joga’. Seu Lauro Quadros dizia assim: ‘faz 90 minutos que o Bráulio não faz um gol’, ‘faz 180 minutos que o Bráulio não faz um gol’. Meus companheiros também já não aturavam esses caras. O Carpegiani disse pra mim um dia, quando fazia 360 minutos que eu não fazia um gol: ‘ainda bem que tu é famoso, porque acho que faz uns dois anos que eu não faço um gol’. Aí vieram para cima do Claudiomiro. Tu imagina, eu um menino, olha o que eu vinha carregando nas costas. Eu vinha carregando isso desde 1966, quando eu jogava botão. Imagina quanto mal esses caras me fizeram. Aí em 73, eu já não agüentava mais. Eu olhava a minha mulher tentando engravidar e não conseguia. Ela era muito tranqüila, mas ia pra faculdade, pro supermercado, todo mundo queria saber do marido dela. Então eu comecei a sentir que aquilo ia começar a prejudicar a minha vida profissional, que eu ia ficar brigando com meus parentes. Aí eu pensei, sabe de uma coisa, eu vou sair daqui. Imagina eu hoje, as pessoas aqui na Federação dizem: ‘Bráulio se tu jogasse hoje tu estaria rico’. E eu estava de saco cheio desses caras. Eu queria era jogar livre, jogar futebol, me divertir. Futebol era um divertimento quando eu comecei, não era uma razão de ganhar dinheiro. E esses caras não estavam deixando eu fazer o que eu amava. Então eu fui pro Coritiba, que não era o que é hoje, com CT’s e tudo mais. De lá nem quis pegar avião de volta pra Porto Alegre nas férias. O Gilberto Tim me falou que o América-RJ estava formando uma boa equipe e eu fui pra lá. Podendo o Internacional, com o nome que eu tinha, me colocar no Flamengo, Botafogo – meu sonho era jogar no Botafogo, eu sou botafoguense por causa do Didi, meu ídolo máximo – Fluminense. Não, eu fui pro América. E o Internacional deixou. Tem outras coisas que eu não vou falar, porque tem pessoas do lado de lá que vão dizer que não é verdade. Mas é, eles sabem tudo que fizeram. Foram poucas pessoas tirando o Stechman, o Marcelo Feijó, o Záchia – pai do Luis Fernando e do Pedro – que foram maravilhosas. O resto não queria nem que eu ficasse e nem que eu jogasse em um grande clube. Eles não queriam que eu fosse para um Flamengo, porque eu ia aparecer demais, ia ir pra seleção. Tanto que eu fui pro América, fui Craque do Ano, melhor jogador do Brasil. Veio o Francisco Horta, presidente do Fluminense, e mandou eu botar a camisa do Fluminense. Fiz exames no Fluminense, saiu em tudo que é capa de jornal. Cheguei em Porto Alegre o Internacional já tinha me vendido pro América. O América tinha condição de pagar 600 mil? Não tinha. O Inter vendeu por 250 e me deu os 15% sobre os 600. Até a metade do meu salário no América o Inter pagava. O presidente do América, Wilson Carvalhal, me contou. Quer dizer, era para eu não jogar no Botafogo, porque se eu fosse…Era o Coutinho dizendo (técnico da seleção brasileira na época) que eu estava entre os 40 da seleção brasileira. Quer dizer, era só aqui no Internacional com os mandarins que eu não jogava. Isso que eu to contanto para vocês, estou contando em primeira mão, porque é para vocês verem como existiam coisas por trás.

Comentários»

1. Joyce Assunção barros - 20 Outubro, 2007

eu quero q vocês falem do esporte no passado!!!!!!!!!!!!1

2. reporteresportivo - 20 Outubro, 2007

Calma, Joyce, faremos o possível para atender seu pedido. Estamos muito contentes por que ninguém faz um pedido a alguém que não julga capaz de cumprir. Na capa da revista há o link para nossa comunidade no orkut, outro espaço que estamos abrindo para sugestões de pauta e discussões sobre o esporte. Participem todos aqui e lá. Abraços e beijos da turma de cá para todos os leitores e em especial para Joyce!

3. Francisco Pagot - 1 Janeiro, 2008

Amigos!

Gostaria de uma matéria, com foto ou fotos, obviamente, sobre o ex-centroavante Hélio Alves da Silva, o Helinho, que jogou no Inter entre 1963 a 1967.
É como pede a Joyce. Vamos trazer à tona as reminiscências. O que acontece atualmente está todo dia nos jornais, revistas, televisão e internet. Mas a história vai ficando esquecida, como é o caso do Helinho ou Hélio Alves da Silva. N]ão consigo uma matéria sobre esse craque. E estou escrevendo coisas sobre o futebol em Canoas, e ele morava em Canoas na época.

Tenho um Blog – XICO JÚNIOR e o FUTEBOL só sobre times e jogadores de futebol de Canoas, natos ou adotivos. Suiper interessante.

Fico aguardando um retorno pelos E-mails:
la-stampa@ig.com.br ou fa.pagot@bol.com.br

Francisco Pagot
Canoas – RS.